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A peculiaridade de Barbosa Lessa para o gauchismo

O Gauchismo vem se formando desde o século XIX com o Partenon Literário, Grêmio Gaúcho e diversos autores que resgataram e idealizaram a figura do gaúcho.O Movimento Tradicionalista Gaúcho foi fundado somente em meados do século XX com a liderança de Paixão Cortês e os cavaleiros julianos. Contudo o Primeiro a tentar constuir uma base científica ao movimento tradicionalista (antes dele as elaborações eram somente literárias) foi Barbosa Lessa no artigo intitulado "O Sentido e o Valor do Tradicionalismo". Por isso ele se torna para nós, referência na discussão do tema gauchista tal como propomos, a saber, a elaboração de uma base cientifica ao movimento.



Conceitos básicos de sociedade e cultura

Este texto compreende sete crônicas publicadas por Barbosa Lessa no periódico "Extra-Classe", do Sindicato dos Professores do RS.As crônicas constituintes desse texto são 2000 e 2001

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Como o tempo passa correndo, bah! Parece que foi ontem que o editor Marcelo Menna Barreto, levando em conta meu gosto pela história, me fez o inesperado e honroso convite para que eu me tornasse um colaborador permanente do Extra Classe, numa nova coluna que versaria sobre Imagens do Passado. Pois lá se foram quatro anos! Quatro anos de gostoso convívio com leitores a quem não conheço pessoalmente mas que, sem dúvida, já fazem parte do lado mais positivo de minha vida.
Comecei com “A primeira escola do Rio Grande do Sul”, versando sobre o Colégio das Servas de Maria, fundado em 1778 pelo governador José Marcelino. Redação e leitura fáceis, descompromissadas, pelo fato de tanto eu quanto o leitor sermos meros espectadores de um episódio ocorrido há mais de dois séculos. A história é algo que já aconteceu.
Na última crônica, porém, houve uma virada que até me surpreendeu. Ao versar sobre o rico cabedal de provérbios que nos foram legados pelas gerações anteriores, grande parte dos quais ainda vigentes, tanto eu quanto o leitor fomos induzidos a tomar um posicionamento pró ou contra os ensinamentos pretendidos pela cultura popular. Não podemos ser meros espectadores. A cultura é algo que está acontecendo em nosso dia-a-dia.
Então me dei conta de que não tem havido preocupação por transmitir ao indivíduo comum um mínimo de conceitos básicos que evidenciam o papel que ele desempenha em determinada cultura. Se ele já aprendeu o ABC e as quatro operações, já está preparado para o que der e vier. Mas não é assim, não. Por isso, peço licença ao Extra Classe para ir preenchendo meu espaço com alguns tópicos fundamentais para melhor compreensão do próprio passado. Sei que os doutos, os eruditos, até podem se rir do primarismo de minhas “lições”. Mas também sei que muita gente boa poderá exclamar “ah é? e eu que não sabia!”
Começo me valendo da autoridade de mestre Emílio Willems para definir Sociedade: “Conjunto relativamente complexo de indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades, permanentemente associados e equipados de padrões culturais comuns, próprios para garantir a continuidade do todo e a realização de seus ideais”. É isso aí.
O homem, ao nascer, traz consigo uma herança física, isto é, uma série de caracteres genéticos e um comportamento individual instintivo que o tornam um animal específico, diferente dos outros animais. Mas ele também irá receber uma herança social, isto é, uma série de símbolos, idéias, atitudes, equipamentos e técnicas que irão determinar o seu comportamento dentro do grupo social a que pertence. (continua no próximo número)
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Cultura é tudo aquilo que, não sendo estrutura biológica nem comportamento instintivo, se acrescenta à herança física do indivíduo. Por exemplo: a criança começa emitindo vagidos e outros sons rudimentares, até que esses sons se transformem em linguagem articulada, com significados precisos; e então a Língua já será expressão cultural. Cultura também é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza, operando sobre o ambiente que o cerca. Por exemplo: na mata há galhos, folhas, raízes, cipós; quando o índio pega de um galho de guatambu e o retesa com cipós, a flecha já será uma expressão cultural.
Cultura e Sociedade são reciprocamente dependentes. É a posse de uma Cultura que dá à sociedade sua unidade psicológica e permite que os indivíduos vivam em conjunto com um mínimo de ambigüidades. E é a Sociedade, por seu comportamento coletivo, que dá à cultura uma manifestação expressa, objetiva, assimilável pelo indivíduo e transmissível de geração a geração.
Para fins puramente conceptuais, podemos colocar de um lado a cultura material, ergológica, e, de outro, a cultura imaterial. A primeira, que se identifica com o conceito de Civilização, é representada pelos equipamentos, artefatos e técnicas de que o grupo social se serve para atuar sobre a natureza. A segunda se constitui num sistema de símbolos, idéias, atitudes, reações emocionais condicionadas e maneiras socialmente padronizadas.Na base disso tudo está a comunicação, que é o processo pelo qual o ser humano – originalmente uma unidade física – se integra a uma unidade maior, a comunidade, e o processo pelo qual se transmitem numa sociedade, as idéias, sentimentos, estruturas sociais, bens e mercadorias.
A comunicação seria a coisa mais fácil deste mundo se não houvesse, para complicá-la, a competição – a começar pela competição ecológica, que é a disputa dos recursos naturais pelos seres vivos. Mas a cultura brasileira não ignora o fenômeno, e tanto assim que já sacramentou um provérbio: “Quem não se comunica, se trumbica”.
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Mesmo que não tenha conhecimento disso, cada cidadão ou cidadã faz parte de uma Sociedade e de uma Cultura, que evoluem para cá ou para lá de acordo com a votação diária (e geralmente inconsciente) de todo o eleitorado constituinte. Para que a eleição se torne mais clara é que vimos arrolando alguns conceitos básicos que influem diretamente no exercício da cidadania.Já dissemos que Comunicação é o processo pelo qual idéias, sentimentos, bens e mercadorias se transmitem de indivíduo para indivíduo, permitindo que o ser humano – originalmente uma unidade física – se integre a uma unidade maior, que é a comunidade.
Agora nos referimos à difusão, que é o processo pelo qual os elementos culturais se propagam dentro da comunidade em que tiveram origem, ou, fora, em sociedades culturalmente diferentes. Contato cultural é a relação estabelecida por tais grupos ou sociedades. Conflito cultural é a incompatibilidade entre valores culturais quando ocorre o contato.
Acomodação (antítese da competição) é todo e qualquer processo que conduz à cessação de conflitos. Aculturação significa as mudanças ocorridas na cultura de dois ou mais grupos quando postos em contato direto e contínuo. Desintegração é a desarticulação de padrões de uma determinada cultura, motivada pela introdução de elementos culturais antagônicos, incompatíveis com a ordem pré-existente. Reintegração é a possível fase que se segue ao conflito e à desintegração, podendo implicar no obscurecimento total ou parcial da fisionomia anterior, ou na fusão de certa parte de seus elementos em uma configuração nova.
Tradição (do latim traditio) significa a entrega de algo, sendo em tal sentido adotada pela jurisprudência para caracterizar a concreta passagem de um bem à propriedade de outrém, como ocorre numa promessa de compra e venda ou numa herança norteada pelo testamento do finado. Com um leve sentido simbólico, em nossa temática ela significa a entrega da cultura de uma determinada geração à geração subseqüente.
A atitude tradicionalista tende a valorizar a herança social transmitida pelos antepassados, com menosprezo pelas novidades ainda não sancionadas pela experiência. Em contraste com tal postura, a atitude consumista tende a valorizar e consumir, imediatamente, renovados bens e renovadas idéias, com menosprezo pelos critérios do passado.
Em qual categoria você acha que se situa? É tradicionalista? Consumista? Ou prefere votar em branco, na eleição cultural, deixando a coisa rolar para ver como é que fica?
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Desde o alvorecer da humanidade, durante milênios, e ainda hoje, boa parte da cultura é feita e transmitida espontaneamente, por assim dizer instintivamente; e, no tocante, à cultura material, ergológica, utilizam-se os próprios meios fornecidos pela natureza, ou instrumentos rudimentares ao alcance de qualquer um. É mínima a sofisticação tecnológica. Os problemas são resolvidos à base da tradição, transmitida de geração a geração pela família e pelo grupo local.
A transmissão de ensinamentos se faz no dia-a-dia, não existindo nenhuma categoria profissional que assuma conscientemente a missão de ensinar. As especialidades ocupacionais são transmitidas naturalmente pelas mulheres mais velhas às mais jovens, pelos velhos guerreiros aos principiantes, pelos experimentados caçadores aos calouros, e assim por diante. Todos ensinam, naquelas áreas de sua competência. Daí resultando uma espécie de cultura comunitária, a que William Thoms deu o nome de “folk-lore”, de difícil tradução para o português, algo assim como “sabedoria do povo”. Em sua trajetória ao longo dos anos o “folk-lore” tem se expressado fundamentalmente através da linguagem oral e, freqüentemente, vale-se de ensinamentos concisos – os provérbios – e de construções teóricas super-compactas, capazes de serem expressas por uma ou duas palavras – os mitos.
Na cultura espontânea, ou folk, a maioria das pessoas sobrevive manipulando coisas: a flecha, o anzol, a enxada, o tear, a agulha, etc. O artesão se caracteriza como produtor de coisas úteis – que podem ser, também, belas. Seu sistema de trabalho, manual, aproveita matéria-prima gratuita ou de pequeno valor pecuniário. Uma única pessoa, quando muito auxiliada por aprendizes, realiza o trabalho do princípio ao fim e cada peça produzida resulta única, reveladora de qualidades nitidamente pessoais.
Neste estágio – quando ainda não apareceu uma instituição especificamente voltada para a transmissão de ensinamentos – pode-se dizer que toda a educação é “folclórica”, ou todo o folclore é “educacional”.
Já então podemos conceituar Educação em seu sentido lato: é o processo pelo qual o indivíduo adquire, pela aprendizagem, os hábitos que o capacitam a viver de acordo com os padrões de uma determinada sociedade. Tal aprendizagem começa na primeira infância e se vai pela vida afora. A sabedoria popular já o disse: “Vivendo e aprendendo...” Mas a explicação dos fenômenos da natureza e da sociedade ainda é modesta, resultando na proeminência de uma área ainda difusa onde predominam as forças sobrenaturais. Os mitos, em tal circunstância, serão arquétipos acima do homem, no olimpo dos deuses ou configurados nas expressões violentas da natureza.
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Historicamente, a Cultura Cultivada surgiu de minorias privilegiadas que, tendo já superado o nível de produção para a simples sobrevivência, podiam agora entreter-se em exercícios de espírito. Surgiu com os papiros dos sacerdotes do antigo Egito, com os desenhos dos primeiros geômetras, e ganhou força quando instituições como a Igreja ou a Escola tomaram a si a tarefa consciente de transmitir conhecimentos de cunho humanístico, isto é, de valorização do ser humano. Através de mensagens desenhadas, pôde uma geração transmitir seus conhecimentos à geração seguinte sem a necessidade do contato pessoal.
A partir da escrita fonética, imitando os sons da fala humana, e dos tipos móveis de Gutenberg, reproduzindo-os em muitas cópias, a comunicação entra num ritmo espantoso, rompe-se a delimitação de territórios culturais, torna-se mais intenso o contato entre culturas diversas. O indivíduo letrado desgarra-se do grupo local a que pertence e, a cada novo livro que lê, há uma nova alternativa proposta ao seu universo de conhecimentos. A experiência do velho é contestada pelo jovem pesquisador, a ebulição espiritual descortina novos problemas e a inteligência busca resolvê-los.
Se a Cultura Espontânea manipulava, principalmente, coisas, já a Cultura Cultivada passa a manipular, cada ez mais, símbolos – a começar pelas letras ou signos de comunicação escrita. A divisão do trabalho, crescente, vai restringindo o núcleo de conhecimentos comuns a todos e vai multiplicando o segmento das especialidades. Surge a Escola como grande veículo de comunicação social. E a Educação, agora em sentido restrito, passa a ser o processo pelo qual a sociedade institui mecanismos para transmitir, à criança e ao jovem, os padrões de comportamento e o conhecimento das técnicas e ciências, sob regras pedagógicas expressas.
A educação formal, por sua própria essência, ignora a cultura folk, e toda sua sistemática consiste em ir afastando a criança e o adolescente, cada vez mais, dos padrões da sociedade espontânea. De tempos em tempos o professor põe à prova se o aluno já se afastou suficientemente: se este vence tal prova, passa; se não, roda, até aprender. E assim a sociedade vai se dividindo em fragmentos hierarquizados de acordo com a soma de conhecimentos formalmente adquiridos: pré-escolar, primeiro grau, segundo grau, etc. O status é dado pelo respectivo diploma. A liderança política da nação é assumida pelos bacharéis. E o analfabeto, coitado, nem sequer tinha direito a voto: era castrado em sua própria cidadania.
Mas no frigir dos ovos, sente-se que tais tensões causaram um extraordinário bem à Nação.
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Relembro a definição de Sociedade, que já lhes repassei, servindo-me do mestre Emilio Willems: “Conjunto de indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades, permanentemente associados e equipados de padrões culturais comuns, próprios para garantir a continuidade de todo e a realização de seus ideais.” Esses padrões culturais comuns a todos, encontráveis mesmo nas tribos mais primitivas, são tecnicamente chamados de Universais. São a língua materna, a aparência das moradias, as peças dos artesãos produzindo coisas úteis, o comportamento diante dos altares consagrados aos deuses, etc. E cumpre fazer um comentário acerca de “todas as idades”. Não havia um estágio jovem na evolução etária do indivíduo. A criança era livre e irresponsável até o momento em que – por determinação fisiológica – se via enfrentando os “ritos de passagem” e instantaneamente transferida para a categoria de adulto. Por outro lado, reconhecia-se um estágio posterior à velhice: a vida na morte. Os mortos eram convidados para as cerimônias tribais, intercediam junto aos deuses, davam conselhos, enfim animavam todos os rituais de magia.

Além dos Universais, havia as Especialidades, compartilhadas por todos os indivíduos de uma mesma categoria. Por exemplo, os conhecimentos práticos reservados às mulheres no tocante aos cuidados das crianças e ao preparo de alimentos. Universais e Especialidades formavam o núcleo, coeso, do grupo local. As normas eram transmitidas com clareza pela Família, ditadas pela Tradição e quase sempre apoiadas pelos santos e outras super-entidades imateriais. E assim se completava o panorama da Cultura Espontânea.
Ao ocorrer o aparecimento da escrita fonética (imitando os sons da fala humana) e o impacto dos tipos móveis de Gutenberg imprimindo cópias e mais cópias de determinada mensagem, o panorama se modificou profundamente. A principal fonte de comunicação se transferia da família para a Escola. O indivíduo letrado desgarrava-se do grupo local a que pertencia e, a cada novo livro lido, novas Alternativas de comportamento iam sendo sugeridas para gravitarem em torno dos Universais e Especialidades. Os mitos, antes pertencentes a um mundo imaginário, passaram a ser figuras de carne e osso: os heróis nacionais. Ao lado do artesão, produtor de coisas úteis, foi ganhando aplauso o artista, produtor de coisas belas. E fortes aplausos para o professor, o inventor, o escritor, o orador, levaram em frente a Cultura Cultivada. Em que o pobre do analfabeto só valia pela força animal de seus braços.
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A maior revolução ainda estava por chegar: a Cultura de Massa. Ela evoluiu da imprensa para o rádio e chegou à gravação de discos, aos programas de rádio, às telenovelas, ao telefone celular. Lado a lado, o analfabeto e o doutor aplaudiram a “novela das oito”. Se, antes, a Sociedade Espontânea manipulava objetos e a Sociedade Cultivada difundia símbolos, já agora a Sociedade de Consumo – fruto e fator da Cultura de Massa – manipulava mercadorias, bens comercializáveis. Evoluindo do campo artesanal, o operário industrial se põe a serviço do empresário e promete-lhe auferição de bons lucros. Mas o empresário não depende exclusivamente do trabalhador: ali está a seu lado o profissional de Marketing, realizando pesquisas e indicando quais as mais promissoras fatias do mercado consumidor. E então é redescoberto o falecido jovem! Numericamente muito expressivo, mas já sem o apoio da Família e quase perdendo o apoio da Escola para a escolha das melhores Alternativas. As façanhas dos heróis nacionais já não o comovem, como também não o comovem os rituais de adoração dos deuses. Quem arranca suspiros de veneração, agora, são os heróis da Cultura de Massa: atores de televisão, craques de futebol, sensacionais cantores, belas modelos lançando novidades, e assim por diante. E se o jovem quiser um contato pessoal com eles, não há problema: ali está a Internet inteiramente à disposição.Como qualquer outro mortal dos dias de hoje, guardo em meu ser social um tantinho da Cultura Espontânea, apego-me ao que me foi ensinado pela Cultura Cultivada e, no fundo, cada vez mais admiro as proezas das Cultura de Massa. Mas tenho passado por surpresas de tontear. Há cerca de vinte dias encontrei um jovem amigo, que me dispensa sincera afeição, e ele me informou que estava disposto a pedir demissão do emprego que eu lhe havia conseguido. Com seriedade, eu lhe disse: “Pensa bem, Fulano. Conheço por aí muito engenheiro, advogado, até médico, que anda matando cachorro a grito e não consegue emprego.” E ele me arrasou ironicamente: “Quem mandou eles estudarem? Agora, agüentem...”
Autor: Barbosa Lessa

O Sentido eo Valor do Tradicionalismo - Parte II

O MOVIMENTO TRADICIONALISTA RIO-GRANDENSE

O movimento tradicionalista rio-grandense - que vem se desenvolvendo desde 1947, com características especialíssimas - visa precisamente combater os dois reconhecidos fatores de desintegração social. O fundamento científico deste movimento encontra-se na seguinte afirmação sociológica: "Qualquer sociedade poderá evitar a dissolução enquanto for capaz de manter a integridade de seu núcleo cultural. Desajustamentos, nesse núcleo, produzem conflitos entre indivíduos que compõem a sociedade, pois esses vêm a preferir valores diferentes, resultando, então, a perda da unidade psicológica essencial ao funcionamento eficiente de qualquer sociedade".
Através da atividade artística, literária, recreativa ou esportiva, que o caracteriza - sempre realçando os motivos tradicionais do Rio Grande do Sul - o Tradicionalismo procura, mais que tudo, reforçar o núcleo da cultura rio-grandense, tendo em vista o indivíduo que tateia sem rumo e sem apoio dentro do caos de nossa época.
E, através dos Centros de Tradições, o Tradicionalismo procura entregar ao indivíduo uma agremiação com as mesmas características do "grupo local" que ele perdeu ou teme perder: o " pago". Mais que o seu "pago", o pago das gerações que o precederam.
Cada Centro de Tradições Gaúchas, em si, é um novo "Grupo Local". E à medida que surgem novos Centros, em todos os municípios do Rio Grande do Sul, vai o Tradicionalismo confundindo-se com o Regionalismo, pois opera para que todos os indivíduos que compõem a Região sintam os mesmos interesses, os mesmos afetos, e desta forma reintegrem a unidade psicológica da sociedade regional. E com isso o Tradicionalismo pode se transformar na maior força política do Rio Grande do Sul. Para evitar confusão de "política" com "política partidária", expressemo-nos assim: O Tradicionalismo pode constituir-se na maior força a auxiliar o Estado na resolução dos problemas cruciais da coletividade.
Para compreendermos tal afirmativa, basta repetir a transcrição já feita: "Se os cidadãos tiverem interesses e culturas comuns, com vontade unificada que daí advém, quase qualquer tipo de organização formal de governo funcionará eficientemente. Mas, se isso não se verificar, nenhuma elaboração de padrões formais de governo, nenhuma multiplicação de lei, produzirá um Estado eficiente ou cidadãos satisfeitos.

O SENTIDO DO TRADICIONALISMO

O Tradicionalismo consiste numa EXPERIÊNCIA do povo rio-grandense, no sentido de auxiliar as forças que pugnam pelo melhor funcionamento da engrenagem da sociedade. Como toda experiência social, não proporciona efeitos imediatamente perceptíveis. O transcurso do tempo é que virá dizer do acerto ou não desta campanha cultural. De qualquer forma, as gerações do futuro é que poderão indicar, com intensidade, os efeitos desta nossa - por enquanto - pálida experiência. E ao dizermos isso, estamos acentuando o erro daqueles que acreditam ser o Tradicionalismo uma tentativa estéril de "retorno ao passado". A realidade é justamente o oposto: o Tradicionalismo constrói para o futuro.
Feitas estas considerações preliminares, podemos tentar um conceito do movimento tradicionalista. E então diremos:
"Tradicionalismo é o movimento popular que visa auxiliar o Estado na consecução do bem coletivo, através de ações que o povo pratica (mesmo que não se aperceba de tal finalidade) com o fim de reforçar o núcleo de sua cultura: graças ao que a sociedade adquire maior tranqüilidade na vida comum".

CARACTERÍSTICAS DO TRADICIONALISMO

Mais do que uma teoria, o Tradicionalismo é um movimento. Age dentro da psicologia coletiva. Sua dinâmica realiza-se por intermédio dos Centros de Tradições Gaúchas, agremiações de cunho popular que têm por fim estudar, divulgar e fazer com que o povo "viva" as tradições rio-grandenses.
O Tradicionalismo deve ser um movimento nitidamente POPULAR, não simplesmente intelectual. É verdade que o tradicionalismo continuará sendo compreendido, em sua finalidade última, apenas por uma minoria intelectual. Mas, para vencer, é fundamental que seja sentido e desenvolvido no seio das camadas populares, isto é, nas canchas de carreiras, nos auditórios de radioemissoras, nos festivais e bailes populares, na "Festas do Divino" e de "Navegantes", etc.
Para alcançar seus fins, o Tradicionalismo serve-se do Folclore, da Sociologia, da Arte, da Literatura, do Esporte, da Recreação, etc. Tradicionalismo não se confunde, pois, com Folclore, Literatura, Teatro, etc. Tudo isso constitui MEIOS para que o Tradicionalismo alcance seus fins. Não se deve confundir o Tradicionalismo, que é um movimento, com o Folclore, a História, a Sociologia, etc., que são ciências. Não se deve confundir o folclorista, por exemplo, com o tradicionalista: aquele é o estudioso de uma ciência, este é o soldado de um movimento. Os Tradicionalistas não precisam tratar cientificamente o folclore; estarão agindo eficientemente se servirem dos estudos dos folcloristas, como base de ação, e assim reafirmarem as vivências folclóricas no próprio seio do povo.

AS DUAS GRANDES QUESTÕES DO TRADICIONALISMO

Existem duas questões importantíssimas, que de maneira nenhuma podem ser descuidadas pelos tradicionalistas, sob pena deste esforço cultural se desenhar, de antemão, como uma experiência fracassada.

A) ATENÇÃO ESPECIAL ÀS NOVAS GERAÇÕESDeve, o Tradicionalismo, operar com intensidade no setor infantil ou educacional, para que o movimento tradicionalista não desapareça com a nossa geração. Porque nós - os tradicionalistas de primeira arrancada - entramos para os Centros de Tradições Gaúchas movidos pela necessidade psicológica de encontrar o "grupo local" que havíamos perdido ou que temíamos perder. Mas as gerações novas não chegaram a conhecer o grupo local como unidade social autêntica, e somente seguirão nossos passos por força de impulsos que a educação lhes ministrar.
Por isso não temo afirmar que o dia mais glorioso para o movimento tradicionalista será aquele em que a classe de Professores Primários do Rio Grande do Sul - consciente do sentido profundo desse gesto, e não por simples atitude de simpatia - oferecer seu decisivo apoio a esta campanha cultural.
Aliás, não se concebe que as Escolas Primárias continuem por mais tempo apartadas do movimento tradicionalista. Pois a maneira mais segura de garantir à criança o seu ajustamento à sociedade é precisamente fazer com que ela receba, de modo intensivo, aquela massa de hábitos, valores, associações e reações emocionais - o patrimônio tradicional, em suma - imprescindíveis para que o indivíduo se integre eficientemente na cultura comum.

B) ASSISTÊNCIA AO HOMEM DO CAMPOA idéia nuclear das Tradições Gaúchas é a figura do campeiro das nossas estâncias. Por isso, é sumamente necessário que o Tradicionalismo ampare social e moralmente o homem do campo, para que um dia não se chegue à situação paradoxal de manter-se uma Tradição de fantasia, em que se tecessem hinos de louvor ao "Monarca das Coxilhas", ao "Centauro dos Pampas", e esse gaúcho fosse um desajustado social, um pária lutando febrilmente pela própria subsistência. A nossa cultura somente poderá se impor sobre as outras culturas, no entrechoque inevitável, se for suficientemente prestigiosa. Daí a razão por que precisamos mostrar às novas gerações - bem como àqueles que, vindos de terras distantes, acorrerem à nossa querência - que as tradições gaúchas são REALMENTE belas, e que o gaúcho merece realmente a nossa admiração.

O TRADICIONALISMO COMO FORÇA ECONÔMICA
Prestigiando as tradições gaúchas e prestando assistência moral e social ao homem do campo, o Tradicionalismo estará contribuindo de maneira inestimável para a solução do problema que ora sufoca a nossa vida econômica: o êxodo rural, a crise agrícola. É que, dentre as principais causas do êxodo rural, encontramos uma que foge ao âmbito dos fenômenos econômicos. Para proteger o homem do campo, e fazer com que ele permaneça no meio rural, não basta que o Estado lhe forneça meios econômicos mais seguros. Se o campesino acaso julgar que o lugar que lhe está reservado na sociedade encontra-se nas cidades, ele será um desajustado enquanto não realizar seu sonho de transferir-se para a cidade. Este fenômeno prende-se ao conceito sociológico de "status", que é a posição social de uma pessoa em relação a todas as outras com quem está em contato. Se "os outros" demonstram que certo indivíduo ocupa um "status" digno, ele fica satisfeito; mas se "os outros" demonstram o contrário, ele é, inconscientemente, levado a demonstrar habilidade, e, nesse afã, sempre deseja competir com os indivíduos que considera superiores, jamais com aqueles que considera inferiores. Assim sendo, se o campesino se considera inferior ao citadino, mais cedo ou mais tarde tentará procurar a cidade, para ali competir com quem lhe rouba a posição social.
Prestigiando as tradições gaúchas, e prestando assistência moral e social ao homem do campo, o Tradicionalismo estará convencendo o campesino da dignidade e importância do seu "status". Estará, em suma, pondo em prática aquilo que o sanitarista Belizário Penna um dia salientou, mais ou menos nestes termos: "O Brasil é o país onde mais se fala em valorização.
Valorização do café brasileiro, do dinheiro brasileiro, do algodão brasileiro, do boi brasileiro. Somente não se pensa na mais urgente e importante valorização: a do Homem brasileiro, a qual, por si só, estaria conduzindo a todas as outras".

Autor: Barbosa lessa
Origem: www.paginadogaucho.com.br

O Sentido e o Valor do Tradicionalismo Parte I

Autor: Barbosa Lessa

Tese aprovada pelo Primeiro Congresso Tradicionalista doRio Grande do Sul, Santa Maria, Julho de 1954.
Comentários: Embora Barbosa Lessa tenha sido um folclorista, e a maioria de seus trabalhos se concentre no resgate e interpretação de costumes históricos, o artigo intitulado " O Sentido e o Valor do Tradicionalismo" é uma elaboração sociológica sobre o tema. provavelmente seja a primeira tentativa de fundamentação sociológica do movimento.
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Na vida humana, a sociedade - mais que o indivíduo - constitui a principal força na luta pela existência. Mas, para que o grupo social funcione como unidade, é necessário que os indivíduos que o compõem possuam modos de agir e de pensar coletivamente. Isto é conseguido através da "herança social" ou da "cultura". Graças à cultura comum, os membros de uma sociedade possuem a unidade psicológica que lhes permite viverem em conjunto, com um mínimo de confusão.
A cultura, assim, tem por finalidade adaptar o indivíduo não só ao seu ambiente natural, mas também ao seu lugar na sociedade. Toda a cultura inclui uma série de técnicas que ensinam ao indivíduo, desde a infância, a maneira como comportar-se na vida grupal. E graças à Tradição, essa cultura se transmite de uma geração a outra, capacitando sempre os novos indivíduos a uma pronta integração na vida em sociedade.

I - A DESINTEGRAÇÃO DE NOSSA SOCIEDADE

A cultura e a sociedade ocidental estão sofrendo um assustador processo de desintegração. Incluídas nesse panorama geral, a cultura e a sociedade de quaisquer dos povos ocidentais, necessariamente, apresentam, com maior ou menor intensidade, idêntica dissolução. É nos grandes centros urbanos que esse fenômeno se desenha mais nítido, através das estatísticas sempre crescentes de crime, divórcio, suicídio, adultério, delinqüência juvenil e outros índices de desintegração social.
Analisando tais circunstâncias, mestres da moderna Sociologia chegaram à conclusão de que problemas sociais cruciantes da atualidade são causados, ou incentivados, pelo relaxamento do controle dos costumes e noções tradicionais de cada cultura.

II - OS DOIS FATORES DE DESINTEGRAÇÃO

Sociólogos de renome afirmam que a desintegração social, característica de nossa época, é devida a dois fatores:
Primeiro: o enfraquecimento das culturas locais.
Segundo: o desaparecimento gradativo dos "Grupos Locais" comunidades transmissoras de cultura.
Analisemos, então, esses dois fatores.

A) O ENFRAQUECIMENTO DO NÚCLEO CULTURAL

A cultura de qualquer sociedade se compõe de duas partes.Há um núcleo sólido, de certa forma estável, constituído pelo PATRIMÔNIO TRADICIONAL. Nesse núcleo se concentram aqueles inúmeros hábitos, princípios morais, valores, associações e reações emocionais partilhados por TODOS os membros de determinada sociedade (como a linguagem, a indumentária típica, os princípios fundamentais de moral, etc. ou ainda, por TODOS os membros de certas categorias de indivíduos, dentro da sociedade (como as ocupações reservadas só às mulheres ou só aos homens, as reações emocionais típicas de todos os velhos ou de todas as crianças, bem como os conhecimentos técnicos reservados aos ferreiros, aos médicos, aos agricultores, etc.). Tais elementos culturais contribuem para o bem-estar da coletividade, pois o indivíduo fica sabendo como comportar-se em grupo, e qual o comportamento que pode esperar dos outros("expectativas de comportamento"). Em suma: o cerne cultural dá, aos indivíduos, a unidade psicológica essencial ao funcionamento da sociedade.
Mas, cercando o núcleo, existe uma zona fluída e instável, constituída por elementos culturais chamados, em sociologia, Alternativas, e que são traços partilhados apenas por ALGUNS indivíduos, representando diferentes reações às mesmas situações, ou diferentes técnicas para alcançar os mesmos fins. (Certa pessoa viaja a cavalo, fazendo o mesmo percurso que outra prefere realizar em carroça; certa pessoa sente-se tremendamente ofendida se alguém faz "crítica" a um defeito físico seu, enquanto outra se comporta resignadamente face a tais críticas; etc.)
É esta zona de Alternativas que permite à cultura crescer e acomodar-se aos avanços de uma civilização. Evidentemente, quanto maior for o entrechoque com culturas diversas, maior será a possibilidade de adoção de novas Alternativas, por parte dos membros de uma sociedade.
Quando a cultura de determinado povo é invadida por novos hábitos e novas idéias, duas coisas podem ocorrer:
Se o patrimônio tradicional dessa cultura é coerente e forte, a sociedade só tem a lucrar com o referido contato, pois sabe analisar, escolher e integrar em seio aqueles traços culturais novos que, dentre muitos, realmente sejam benéficos à coletividade.
Se , porém, a cultura invadida não é predominante e forte, a confusão social é inevitável: idéias e hábitos incoerentes sufocam o núcleo cultural, desnorteando os indivíduos, e fazendo-os titubear entre as crença e valores mais antagônicos. Quem mais sofre com essa confusão social - acentua o sociólogo Donal Pierson - são as crianças e os adolescentes, os responsáveis pela sociedade do porvir.
Crescendo nessas circunstâncias, a criança não sabe como agir, não é capaz de assumir, em seu espírito, qualquer expectativa clara de comportamento. E assim se originam, entre outros, os problemas da delinqüência juvenil, resultados de uma desintegração social.
Pois bem. Devido ao surto surpreendente do maquinismo em nossos dias, bem como da facilidade de intercâmbio cultural entre os mais diversos povos, observa-se que o núcleo das culturas locais ou regionais vai se reduzindo gradativamente, a ponto de se ver sufocado pela zona das Alternativas. E a fluidez naturalmente se acentua, à medida que as sociedades mantêm novos contatos com traços culturais diferentes ou antagônicos, introduzidos por viajantes ou imigrantes, ou difundidos por livros, imprensa, cinema, etc. Nossa civilização, antes alicerçada num núcleo sólido e coerente, transformou-se numa variedades de Alternativas, entre as quais o indivíduo tem que escolher.. Sem ampla comunidade de hábitos e de idéias, porém, os indivíduos não reagem com unidade a certos estímulos, nem podem cooperar eficientemente. Daí os conflitos de ordem moral que afligem o indivíduo, fazendo atarantar-se sem saber quais as opiniões e os valores que merecem acatamento.
Essa insegurança reflete-se imediatamente na sociedade como um todo e, consequentemente no Estado, pois, conforme ensina Ralph Linton "embora os problemas de organizar e governar Estados nunca tenham sido perfeitamente resolvidos, uma coisa parece certa: se os cidadãos tiverem interesses e culturas comuns, com a vontade unificada que daí advém, quase qualquer tipo de organização formal de governo funcionará eficientemente; mas se isso não se verificar, nenhuma elaboração e padrões formais de governo, nenhuma multiplicação de lei, produzirá um Estado eficiente ou cidadãos satisfeitos".

B) O DESAPARECIMENTO DOS "GRUPOS LOCAIS"

As duas unidades mais sociais mais importantes, como transmissoras de cultura, são a "família" e o "grupo local". Através dessas duas unidades, o indivíduo recebe, com maior intensidade, a sua "herança social".São exemplos de "grupo local", em nossa sociedade, o "vizindário" ou "pago" das populações rurais, bem como as pequenas vilas do interior, ou ainda (um exemplo do passado) os bairros com vida própria das cidades de há alguns anos atrás.
Por "grupo local" entende-se o agregado de famílias e de indivíduos avulsos que vivem juntos em certa área, compartilhando hábitos e noções comuns.Embora não tenha organização formal (como o distrito ou o município), o "grupo local" é a unidade social autêntica. O "pago", por exemplo, influencia a vida dos seus membros, estabelece limites à vida social (quais as famílias que podem ser convidadas para as festas) , mantém elevado grau de cooperação entre os indivíduos, pois todos devem se auxiliar (antigos trabalhos de puxirão) e cada qual tem consciência desse dever de auxílio mútuo. O Indivíduo conhece perfeitamente os costumes e os princípios morais instituídos pelo seu "pago"; além disso, há um conhecimento íntimo entre os membros de um mesmo "pago" (conhecem-se até os animais objetos pertencentes aos vizinhos). Todas essas circunstâncias influem para que o "grupo local" se constitua numa potente barragem para as transgressões à ordem pública ou à moral (furto, sedução, adultério, etc.). Ademais, embora não tenha um meio de reação formal(como a polícia), o "grupo local encerra grande força punitiva, através de medidas como a perda de prestígio, o ridículo, o ostracismo. Certamente já depreendemos, então, a grande importância de que se reveste o "grupo local" para assegurar a normalidade da vida comum, segundo os padrões culturais instituídos pelo grupo.
Acresce notar o seguinte: o integrar-se a um "grupo local" constitui verdadeira NECESSIDADE PSICOLÓGICA para o indivíduo normal. Este precisa de uma unidade social coesa, maior que a família, dentro da qual sinta que outros indivíduos são seus amigos, que compartilham suas idéias e hábitos. Tanto é verdade que o indivíduo se sente inseguro quando se vê só entre estranhos.Pois bem. O enfraquecimento da vida grupal - conforme acentuou Ralph Linton - é outra característica de nossa época. As unidades sociais pequenas estão gradativamente desaparecendo, e cedendo lugar às massas de indivíduos. Nas zonas rurais, os "grupos locais" ainda conservam um pouco de sua função como portadores de cultura; mas, em geral - devido ao afluxo de Alternativas - os jovens discordam dos padrões culturais antigos; acontece, porém, que a sociedade mais ampla - com a qual o jovem entra em contato por meio da imprensa, do rádio e cinema - ainda não têm padrões coerentes de vida para oferecer-lhes. Daí a insegurança que começa a notar-se em nossa sociedade rural.
Se nas zonas rurais se percebe apenas uma insegurança incipiente, apenas o relaxamento das forças do "grupo local" , o que se percebe nas cidades é a desintegração total dessas forças. A mudança de padrões culturais, em nossos dias, tem sido tão rápida que, em geral, o adulto de hoje teve sua infância condicionada à vida segundo as bases do "grupo local". Ensinaram-lhe a esperar dos seus vizinhos encorajamento e apoio moral; e quando esses vizinhos se afastam, o indivíduo se sente perdido. Ele escolhe entre muitas Alternativas, mas não dispõe de meios para estabelecer contato com outros que tenham feito, escolha semelhante.
Sem o apoio de um grupo que pense do mesmo modo, é - lhe impossível sentir-se seguro a respeito de qualquer assunto. E assim o indivíduo torna-se presa fácil de qualquer propaganda insistente, (quer seja a má propaganda, quer seja a boa propaganda).
Por isso, Ralph Linton escreveu "A cidade moderna, com sua multiplicidade de organizações de toda a espécie, dá a imagem de uma massa de indivíduos que perderam seus "grupos locais" e estão tentando, de maneira tateante, substituí-los por alguma outra coisa. De todos os lados surgem novos tipos de agrupamentos, mas até agora nada foi encontrado, que pareça capaz de assumir as principais funções do "grupo local". Ser membro do Rotary Club, por exemplo, não substitui adequadamente a posse de vizinhos e amigos tal como se verifica nos grupos locais".
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