Resistência Cultural!

O fenômeno da Globalização, sem dúvida alguma, surgiu como uma forma de ampliação dos interesses do capital, onde capitalizar os lucros e socializar os prejuízos é o principal objetivo de seus protagonistas. Nessa esteira, os países periféricos continuam na submissão colonialista ao chamado primeiro mundo, principalmente na esfera econômica e cultural. Para justificar suas pretensões, este constrói teses como a do pensamento único - o seu, naturalmente, - e falácias como a do Fim da História, com o intuito de que esqueçamos o nosso passado, as nossas raízes, em prol das benesses da globalização neoliberal. E a mão invisível dos Estados do lado de cá deve sempre atender às conveniências do mercado de lá, em detrimento dos interesses legítimos de seus cidadãos de segunda classe: o povo. E até a Lei Maior dos pobres países deve se submeter à essa Nova Ordem Mundial. A cultura dos colonizados deve desaparecer e abrir oportunidades para a exploração econômica da pretensa cultura hegemônica mundial, imposta a um mundo subserviente a esses e a outros interesses dos eternos colonizadores. O nivelamento cultural apregoado pelo mercado sem fronteiras tenta soterrar centenárias tradições regionais, locais, em nome de um suposto e duvidoso comércio comum. Diante de tais interesses, aos cidadãos restam duas opções: aceitar passivamente as perniciosas imposições ou resistir, defendendo as identidades culturais de suas aldeias. Ao Movimento Tradicionalista Gaúcho Brasileiro, no entanto, diante das suas cláusulas pétreas de índole moral-cultural, contidas na sua Carta de Princípios, não lhe é conferida escolha alguma. Deverá continuar observando, fiscalizando e promovendo a Filosofia Tradicionalista entre as suas entidades filiadas, sem rendição a tais interesses econômicos, globalizados ou não. Aos cidadãos tradicionalistas, a estes é garantido o exercício legítimo do direito de resistência cultural, em nome dos mais altos interesses de todo o Bravo Povo Gaúcho Brasileiro!
Origem: sitio Bombacha Larga

Conceitos básicos de sociedade e cultura

Este texto compreende sete crônicas publicadas por Barbosa Lessa no periódico "Extra-Classe", do Sindicato dos Professores do RS.As crônicas constituintes desse texto são 2000 e 2001

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Como o tempo passa correndo, bah! Parece que foi ontem que o editor Marcelo Menna Barreto, levando em conta meu gosto pela história, me fez o inesperado e honroso convite para que eu me tornasse um colaborador permanente do Extra Classe, numa nova coluna que versaria sobre Imagens do Passado. Pois lá se foram quatro anos! Quatro anos de gostoso convívio com leitores a quem não conheço pessoalmente mas que, sem dúvida, já fazem parte do lado mais positivo de minha vida.
Comecei com “A primeira escola do Rio Grande do Sul”, versando sobre o Colégio das Servas de Maria, fundado em 1778 pelo governador José Marcelino. Redação e leitura fáceis, descompromissadas, pelo fato de tanto eu quanto o leitor sermos meros espectadores de um episódio ocorrido há mais de dois séculos. A história é algo que já aconteceu.
Na última crônica, porém, houve uma virada que até me surpreendeu. Ao versar sobre o rico cabedal de provérbios que nos foram legados pelas gerações anteriores, grande parte dos quais ainda vigentes, tanto eu quanto o leitor fomos induzidos a tomar um posicionamento pró ou contra os ensinamentos pretendidos pela cultura popular. Não podemos ser meros espectadores. A cultura é algo que está acontecendo em nosso dia-a-dia.
Então me dei conta de que não tem havido preocupação por transmitir ao indivíduo comum um mínimo de conceitos básicos que evidenciam o papel que ele desempenha em determinada cultura. Se ele já aprendeu o ABC e as quatro operações, já está preparado para o que der e vier. Mas não é assim, não. Por isso, peço licença ao Extra Classe para ir preenchendo meu espaço com alguns tópicos fundamentais para melhor compreensão do próprio passado. Sei que os doutos, os eruditos, até podem se rir do primarismo de minhas “lições”. Mas também sei que muita gente boa poderá exclamar “ah é? e eu que não sabia!”
Começo me valendo da autoridade de mestre Emílio Willems para definir Sociedade: “Conjunto relativamente complexo de indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades, permanentemente associados e equipados de padrões culturais comuns, próprios para garantir a continuidade do todo e a realização de seus ideais”. É isso aí.
O homem, ao nascer, traz consigo uma herança física, isto é, uma série de caracteres genéticos e um comportamento individual instintivo que o tornam um animal específico, diferente dos outros animais. Mas ele também irá receber uma herança social, isto é, uma série de símbolos, idéias, atitudes, equipamentos e técnicas que irão determinar o seu comportamento dentro do grupo social a que pertence. (continua no próximo número)
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Cultura é tudo aquilo que, não sendo estrutura biológica nem comportamento instintivo, se acrescenta à herança física do indivíduo. Por exemplo: a criança começa emitindo vagidos e outros sons rudimentares, até que esses sons se transformem em linguagem articulada, com significados precisos; e então a Língua já será expressão cultural. Cultura também é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza, operando sobre o ambiente que o cerca. Por exemplo: na mata há galhos, folhas, raízes, cipós; quando o índio pega de um galho de guatambu e o retesa com cipós, a flecha já será uma expressão cultural.
Cultura e Sociedade são reciprocamente dependentes. É a posse de uma Cultura que dá à sociedade sua unidade psicológica e permite que os indivíduos vivam em conjunto com um mínimo de ambigüidades. E é a Sociedade, por seu comportamento coletivo, que dá à cultura uma manifestação expressa, objetiva, assimilável pelo indivíduo e transmissível de geração a geração.
Para fins puramente conceptuais, podemos colocar de um lado a cultura material, ergológica, e, de outro, a cultura imaterial. A primeira, que se identifica com o conceito de Civilização, é representada pelos equipamentos, artefatos e técnicas de que o grupo social se serve para atuar sobre a natureza. A segunda se constitui num sistema de símbolos, idéias, atitudes, reações emocionais condicionadas e maneiras socialmente padronizadas.Na base disso tudo está a comunicação, que é o processo pelo qual o ser humano – originalmente uma unidade física – se integra a uma unidade maior, a comunidade, e o processo pelo qual se transmitem numa sociedade, as idéias, sentimentos, estruturas sociais, bens e mercadorias.
A comunicação seria a coisa mais fácil deste mundo se não houvesse, para complicá-la, a competição – a começar pela competição ecológica, que é a disputa dos recursos naturais pelos seres vivos. Mas a cultura brasileira não ignora o fenômeno, e tanto assim que já sacramentou um provérbio: “Quem não se comunica, se trumbica”.
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Mesmo que não tenha conhecimento disso, cada cidadão ou cidadã faz parte de uma Sociedade e de uma Cultura, que evoluem para cá ou para lá de acordo com a votação diária (e geralmente inconsciente) de todo o eleitorado constituinte. Para que a eleição se torne mais clara é que vimos arrolando alguns conceitos básicos que influem diretamente no exercício da cidadania.Já dissemos que Comunicação é o processo pelo qual idéias, sentimentos, bens e mercadorias se transmitem de indivíduo para indivíduo, permitindo que o ser humano – originalmente uma unidade física – se integre a uma unidade maior, que é a comunidade.
Agora nos referimos à difusão, que é o processo pelo qual os elementos culturais se propagam dentro da comunidade em que tiveram origem, ou, fora, em sociedades culturalmente diferentes. Contato cultural é a relação estabelecida por tais grupos ou sociedades. Conflito cultural é a incompatibilidade entre valores culturais quando ocorre o contato.
Acomodação (antítese da competição) é todo e qualquer processo que conduz à cessação de conflitos. Aculturação significa as mudanças ocorridas na cultura de dois ou mais grupos quando postos em contato direto e contínuo. Desintegração é a desarticulação de padrões de uma determinada cultura, motivada pela introdução de elementos culturais antagônicos, incompatíveis com a ordem pré-existente. Reintegração é a possível fase que se segue ao conflito e à desintegração, podendo implicar no obscurecimento total ou parcial da fisionomia anterior, ou na fusão de certa parte de seus elementos em uma configuração nova.
Tradição (do latim traditio) significa a entrega de algo, sendo em tal sentido adotada pela jurisprudência para caracterizar a concreta passagem de um bem à propriedade de outrém, como ocorre numa promessa de compra e venda ou numa herança norteada pelo testamento do finado. Com um leve sentido simbólico, em nossa temática ela significa a entrega da cultura de uma determinada geração à geração subseqüente.
A atitude tradicionalista tende a valorizar a herança social transmitida pelos antepassados, com menosprezo pelas novidades ainda não sancionadas pela experiência. Em contraste com tal postura, a atitude consumista tende a valorizar e consumir, imediatamente, renovados bens e renovadas idéias, com menosprezo pelos critérios do passado.
Em qual categoria você acha que se situa? É tradicionalista? Consumista? Ou prefere votar em branco, na eleição cultural, deixando a coisa rolar para ver como é que fica?
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Desde o alvorecer da humanidade, durante milênios, e ainda hoje, boa parte da cultura é feita e transmitida espontaneamente, por assim dizer instintivamente; e, no tocante, à cultura material, ergológica, utilizam-se os próprios meios fornecidos pela natureza, ou instrumentos rudimentares ao alcance de qualquer um. É mínima a sofisticação tecnológica. Os problemas são resolvidos à base da tradição, transmitida de geração a geração pela família e pelo grupo local.
A transmissão de ensinamentos se faz no dia-a-dia, não existindo nenhuma categoria profissional que assuma conscientemente a missão de ensinar. As especialidades ocupacionais são transmitidas naturalmente pelas mulheres mais velhas às mais jovens, pelos velhos guerreiros aos principiantes, pelos experimentados caçadores aos calouros, e assim por diante. Todos ensinam, naquelas áreas de sua competência. Daí resultando uma espécie de cultura comunitária, a que William Thoms deu o nome de “folk-lore”, de difícil tradução para o português, algo assim como “sabedoria do povo”. Em sua trajetória ao longo dos anos o “folk-lore” tem se expressado fundamentalmente através da linguagem oral e, freqüentemente, vale-se de ensinamentos concisos – os provérbios – e de construções teóricas super-compactas, capazes de serem expressas por uma ou duas palavras – os mitos.
Na cultura espontânea, ou folk, a maioria das pessoas sobrevive manipulando coisas: a flecha, o anzol, a enxada, o tear, a agulha, etc. O artesão se caracteriza como produtor de coisas úteis – que podem ser, também, belas. Seu sistema de trabalho, manual, aproveita matéria-prima gratuita ou de pequeno valor pecuniário. Uma única pessoa, quando muito auxiliada por aprendizes, realiza o trabalho do princípio ao fim e cada peça produzida resulta única, reveladora de qualidades nitidamente pessoais.
Neste estágio – quando ainda não apareceu uma instituição especificamente voltada para a transmissão de ensinamentos – pode-se dizer que toda a educação é “folclórica”, ou todo o folclore é “educacional”.
Já então podemos conceituar Educação em seu sentido lato: é o processo pelo qual o indivíduo adquire, pela aprendizagem, os hábitos que o capacitam a viver de acordo com os padrões de uma determinada sociedade. Tal aprendizagem começa na primeira infância e se vai pela vida afora. A sabedoria popular já o disse: “Vivendo e aprendendo...” Mas a explicação dos fenômenos da natureza e da sociedade ainda é modesta, resultando na proeminência de uma área ainda difusa onde predominam as forças sobrenaturais. Os mitos, em tal circunstância, serão arquétipos acima do homem, no olimpo dos deuses ou configurados nas expressões violentas da natureza.
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Historicamente, a Cultura Cultivada surgiu de minorias privilegiadas que, tendo já superado o nível de produção para a simples sobrevivência, podiam agora entreter-se em exercícios de espírito. Surgiu com os papiros dos sacerdotes do antigo Egito, com os desenhos dos primeiros geômetras, e ganhou força quando instituições como a Igreja ou a Escola tomaram a si a tarefa consciente de transmitir conhecimentos de cunho humanístico, isto é, de valorização do ser humano. Através de mensagens desenhadas, pôde uma geração transmitir seus conhecimentos à geração seguinte sem a necessidade do contato pessoal.
A partir da escrita fonética, imitando os sons da fala humana, e dos tipos móveis de Gutenberg, reproduzindo-os em muitas cópias, a comunicação entra num ritmo espantoso, rompe-se a delimitação de territórios culturais, torna-se mais intenso o contato entre culturas diversas. O indivíduo letrado desgarra-se do grupo local a que pertence e, a cada novo livro que lê, há uma nova alternativa proposta ao seu universo de conhecimentos. A experiência do velho é contestada pelo jovem pesquisador, a ebulição espiritual descortina novos problemas e a inteligência busca resolvê-los.
Se a Cultura Espontânea manipulava, principalmente, coisas, já a Cultura Cultivada passa a manipular, cada ez mais, símbolos – a começar pelas letras ou signos de comunicação escrita. A divisão do trabalho, crescente, vai restringindo o núcleo de conhecimentos comuns a todos e vai multiplicando o segmento das especialidades. Surge a Escola como grande veículo de comunicação social. E a Educação, agora em sentido restrito, passa a ser o processo pelo qual a sociedade institui mecanismos para transmitir, à criança e ao jovem, os padrões de comportamento e o conhecimento das técnicas e ciências, sob regras pedagógicas expressas.
A educação formal, por sua própria essência, ignora a cultura folk, e toda sua sistemática consiste em ir afastando a criança e o adolescente, cada vez mais, dos padrões da sociedade espontânea. De tempos em tempos o professor põe à prova se o aluno já se afastou suficientemente: se este vence tal prova, passa; se não, roda, até aprender. E assim a sociedade vai se dividindo em fragmentos hierarquizados de acordo com a soma de conhecimentos formalmente adquiridos: pré-escolar, primeiro grau, segundo grau, etc. O status é dado pelo respectivo diploma. A liderança política da nação é assumida pelos bacharéis. E o analfabeto, coitado, nem sequer tinha direito a voto: era castrado em sua própria cidadania.
Mas no frigir dos ovos, sente-se que tais tensões causaram um extraordinário bem à Nação.
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Relembro a definição de Sociedade, que já lhes repassei, servindo-me do mestre Emilio Willems: “Conjunto de indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades, permanentemente associados e equipados de padrões culturais comuns, próprios para garantir a continuidade de todo e a realização de seus ideais.” Esses padrões culturais comuns a todos, encontráveis mesmo nas tribos mais primitivas, são tecnicamente chamados de Universais. São a língua materna, a aparência das moradias, as peças dos artesãos produzindo coisas úteis, o comportamento diante dos altares consagrados aos deuses, etc. E cumpre fazer um comentário acerca de “todas as idades”. Não havia um estágio jovem na evolução etária do indivíduo. A criança era livre e irresponsável até o momento em que – por determinação fisiológica – se via enfrentando os “ritos de passagem” e instantaneamente transferida para a categoria de adulto. Por outro lado, reconhecia-se um estágio posterior à velhice: a vida na morte. Os mortos eram convidados para as cerimônias tribais, intercediam junto aos deuses, davam conselhos, enfim animavam todos os rituais de magia.

Além dos Universais, havia as Especialidades, compartilhadas por todos os indivíduos de uma mesma categoria. Por exemplo, os conhecimentos práticos reservados às mulheres no tocante aos cuidados das crianças e ao preparo de alimentos. Universais e Especialidades formavam o núcleo, coeso, do grupo local. As normas eram transmitidas com clareza pela Família, ditadas pela Tradição e quase sempre apoiadas pelos santos e outras super-entidades imateriais. E assim se completava o panorama da Cultura Espontânea.
Ao ocorrer o aparecimento da escrita fonética (imitando os sons da fala humana) e o impacto dos tipos móveis de Gutenberg imprimindo cópias e mais cópias de determinada mensagem, o panorama se modificou profundamente. A principal fonte de comunicação se transferia da família para a Escola. O indivíduo letrado desgarrava-se do grupo local a que pertencia e, a cada novo livro lido, novas Alternativas de comportamento iam sendo sugeridas para gravitarem em torno dos Universais e Especialidades. Os mitos, antes pertencentes a um mundo imaginário, passaram a ser figuras de carne e osso: os heróis nacionais. Ao lado do artesão, produtor de coisas úteis, foi ganhando aplauso o artista, produtor de coisas belas. E fortes aplausos para o professor, o inventor, o escritor, o orador, levaram em frente a Cultura Cultivada. Em que o pobre do analfabeto só valia pela força animal de seus braços.
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A maior revolução ainda estava por chegar: a Cultura de Massa. Ela evoluiu da imprensa para o rádio e chegou à gravação de discos, aos programas de rádio, às telenovelas, ao telefone celular. Lado a lado, o analfabeto e o doutor aplaudiram a “novela das oito”. Se, antes, a Sociedade Espontânea manipulava objetos e a Sociedade Cultivada difundia símbolos, já agora a Sociedade de Consumo – fruto e fator da Cultura de Massa – manipulava mercadorias, bens comercializáveis. Evoluindo do campo artesanal, o operário industrial se põe a serviço do empresário e promete-lhe auferição de bons lucros. Mas o empresário não depende exclusivamente do trabalhador: ali está a seu lado o profissional de Marketing, realizando pesquisas e indicando quais as mais promissoras fatias do mercado consumidor. E então é redescoberto o falecido jovem! Numericamente muito expressivo, mas já sem o apoio da Família e quase perdendo o apoio da Escola para a escolha das melhores Alternativas. As façanhas dos heróis nacionais já não o comovem, como também não o comovem os rituais de adoração dos deuses. Quem arranca suspiros de veneração, agora, são os heróis da Cultura de Massa: atores de televisão, craques de futebol, sensacionais cantores, belas modelos lançando novidades, e assim por diante. E se o jovem quiser um contato pessoal com eles, não há problema: ali está a Internet inteiramente à disposição.Como qualquer outro mortal dos dias de hoje, guardo em meu ser social um tantinho da Cultura Espontânea, apego-me ao que me foi ensinado pela Cultura Cultivada e, no fundo, cada vez mais admiro as proezas das Cultura de Massa. Mas tenho passado por surpresas de tontear. Há cerca de vinte dias encontrei um jovem amigo, que me dispensa sincera afeição, e ele me informou que estava disposto a pedir demissão do emprego que eu lhe havia conseguido. Com seriedade, eu lhe disse: “Pensa bem, Fulano. Conheço por aí muito engenheiro, advogado, até médico, que anda matando cachorro a grito e não consegue emprego.” E ele me arrasou ironicamente: “Quem mandou eles estudarem? Agora, agüentem...”
Autor: Barbosa Lessa

Gauchismo como alternativa ideológica

Os Estados Unidos da América vem se desenvolvendo crescentemente desde a sua fundação, mas sua hegemonia sobre o planeta terra se deu, de forma indiscutível, a partir do final da segunda guerra mundial. Nesse período aconteceu um grande golpe nas expressões culturais regionais, foi imposto ao mundo uma política homogeneizadora que aniquilou as diferenças regionais. O americanismo passou a controlar os padrões culturais e a impor regras em todo mundo, e quem não se ‘americanizava’ era tachado de atrasado.

A algum tempo vem se discutindo sobre o vigor que ainda tem, ou que ainda terá o poderio norte americano sobre o mundo. Essa é uma análise muito complexa e difícil de estabelecer com precisão. Mas podemos abordar algumas questões atuais que demonstram a dificuldade da hegemonia Norte-Americana se estender por muito tempo.Primeiro vamos definir alguns conceitos. Temos que diferenciar o que é ser forte e o que é ser hegemônico. Um país pode ser forte, mas não ser hegemônico, como é o caso de muitos países da Europa. Ser hegemônico em um mundo em que apenas quatro ou cinco nações são de fato industrializadas, e os outros países são arcaicos, semi-medievais, é mais fácil do que manter a hegemonia quando ocorre uma divisão das fábricas e das riquezas, No momento em que começa a surgir nações emergentes com capacidade industrial considerável então a riqueza, em parte se divide, e isso não é bom para manutenção de um sistema hegemônico, esta hegemonia começa a perder amplitude. A riqueza absoluta pode aumentar muito de uma época para outra, mas isso não importa para a hegemonia, para mantê-la importa a riqueza relativa as outras nações, que deve se manter em uma larga diferença. Para haver hegemonia é necessário que quase toda a riqueza esteja sobre controle de um apenas.

Um outro argumento considerável que corrobora com a nossa tese possui caráter histórico, ou seja, a história é dinâmica, as coisas tendem a não permanecer sempre como são. A conjuntura histórica leva um país a se tornar potencia, mas também o leva a decadência. Se no inicio de sua formação os Estados Unidos tiveram uma série de fatores favoráveis a acumulação de riqueza, hoje a conjuntura histórica coloca fatores que desfavorecem a continuidade da hegemonia. Como exemplo citamos a questão ambiental. A natureza não coopera mais como antes, os recursos já não são tão abundantes, a exploração não pode ser desvairada como outrora. Se antes existiam inúmeros países arcaicos com recursos naturais aparentemente infinitos, hoje muitos desses países também se industrializaram, ou os recursos acabaram. Fatores que encarecem e dificultam a conquista dessas matérias-primas, limitando aquela ‘farra’ antiga de comprar toneladas e mais toneladas de produtos primários a preço de banana e depois vender os produtos industrializados, que só eles tinham, a lucros exorbitantes para o mundo todo. Prova de que hoje se paga um preço alto por algumas matérias-primas essenciais são as campanhas militares bilionárias no oriente médio para conquista do petróleo. Tudo isso ainda piora por causa do aquecimento global que não permite mais a poluição desvairada, sem controle ou cuidado com o meio ambiente. E isso causa uma série de gastos com cuidados ambientais que não se tinha antes, gastos que são proporcionalmente bem menores em sociedades menos industrializadas.

Portanto vimos que muitos fatores apontam para uma dificuldade cada vez maior de manutenção da hegemonia mundial, muitos dos recursos destinados para questões que outrora não eram problemas, poderiam estar sendo utilizado na imposição de valores como foi na ‘guerra fria’, poderia se estar tentando impedir o surgimento de outras potências como a China, por exemplo. Pelo visto essas coisas não estão mais ao alcance do poderio Norte Americano, longe de sensacionalismos, a hegemonia de uma nação não cai do dia para noite, é uma longa construção histórica (neste exato momento as mudanças estão ocorrendo), prova disso é o crescimento do MTG, símbolo da expressão regional no mundo todo.

Na medida em que a hegemonia mundial vai perdendo força, o seu monopólio de idéias e valores também vai diminuindo, e com isso o terreno se torna propício ao surgimento de alternativas às idéias e valores vigentes. E na falta (temporária) de uma grande potência hegemônica, as alternativas regionais ganham fôlego. E no caso do Rio Grande o gauchismo é a alternativa mais viável que se coloca para assumir o papel hoje ocupado por instancias Norte-Americanas. Na falta de uma concorrência forte o gauchismo tende a ganhar um espaço ainda maior do que já ocupa, e por fim conseguir criar no povo a noção de pátria, de civismo, de cidadania que, hoje em dia, está tão fragilizado, carente e ansioso por renovação.

Autor: Celso Garcia, graduando de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). 13-10-07

Cultura Gaúcha e Semana Farroupilha

Autor: Evaldo Muñoz Braz (2006)
Logo começarão as comemorações da Semana Farroupilha, que verdadeiramente tem um caráter simplesmente popular/cultural e imediatamente, alguns de nossos intelectuais riograndenses (normalmente são os mesmos) começarão a por em xeque nossa cultura com abordagens aparentemente politizadas mas que encobrem pensamentos de raiz barroco-colonialistas. Suas abordagens críticas sobre a cultura gaúcha trazem na raiz, a internalização da perspectiva conceitual e interpretativa da elite. Sim, elite, pelo menos tem-se como tal: elite cultural.
Normalmente a cultura gaúcha é criticada, atacada em seu todo. Literatura, poesia, história, relações econômicas, ilações de tradição cultural, comemorações e festividades, produções musicais, etc. Deste fato, pode-se se depreender que o que se visa é atacar o todo, ou seja, a cultura “gaúcha”, seja ela correta ou não. Caso contrário, a crítica atingiria partes desta estrutura, se direcionaria a identificar e corrigir equívocos. O que se vê entretanto, são agressões apaixonadas e veementes, revestidas de informações intelectuais, mas vazias conceitualmente.
(I)
Um exemplo clássico é verem o gaúcho (neste nosso caso, uma representação do homem rural pampeano de antigamente) como um símbolo da oligarquia rural. Ora, o símbolo ícone do gaúcho é o poema Martin Fierro, de José Hernandez. Fierro é pobre, um inadaptado ao novo sistema vigente (implantação das estâncias, apropriação por estas do gado chimarrão e posteriormente, o alambrado) . Para muitos um rebelde. De qualquer maneira, um sem posses.
Mais recentemente, Jayme Caetano Braun (sempre mal analisado) é pleno de payadas críticas e sociais, como a intitulada “Prece”. E “Tropa Amarga” de Luis Menezes, é uma antiga e potente crítica social. Quer dizer, são letras e músicas nada alienadas.
Continuando. Em uma avaliação amostral nossa das músicas/letras nativistas/tradionalistas/gauchescas, identificamos 27% de músicas com intenção de crítica econômico/social. É um número significativo. Estas críticas vão desde o questionamento a distribuição de terras, desemprego, críticas aos desmandos de governos estaduais e federais, etc. O restante se distribui entre musicas e letras românticas, revoluções passadas, outras narrativas históricas, descrições geográficas, atividades “profissionais” (ligadas a lida campeira) e cunho humorístico e incluindo-se nestas últimas e em menor número, as relativas a “peleas” normalmente em bailes.
Seria crucial e bem dentro da metodologia científica que estes intelectuais, antes de elaborarem suas críticas (muitas baseadas preguiçosamente e infinitamente em trabalhos antigos: sempre atribuindo tudo ao Partenon Literário), abordassem verdadeiramente nosso patrimônio cultural.

(II)
Um segundo ponto importante trata da crítica ao machismo implícito as comemorações e demais divulgações da cultura gaúcha. Parece que aí há uma confusão com o valor modal “coragem”. Ora, o que qualquer antropólogo pode identificar imediatamente é que está se tratando de valores culturais.
Não de heranças genéticas ou qualquer forma de pretensa superioridade regional. Falamos de cultura como o conjunto dos comportamentos, saberes e saber-fazer característicos de um grupo humano ou de uma sociedade dada, sendo estas atividades adquiridas por um processo de aprendizagem e transmitidas ao conjunto de seus membros (LAPLANTINE, 1988). Como diz o escritor argentino Jorge Luís Borges, o gaúcho tinha “a obrigação da coragem” A “obrigação da coragem” não é (ou era) patrimônio apenas da região pampeana (RS, Uruguay e Argentina), mas de várias regiões da América Latina, como por exemplo no México rural do passado. Érico Veríssimo descreve magistralmente esta questão, quando o filho do Dr. Rodrigo Cambará (O Arquipélago, O Tempo e o Vento), Floriano, não se ajusta mais ao modelo paterno baseado na cultura da coragem (FONSECA BINS, 2005). Também há um personagem gaúcho (campeiro) na saga de Veríssimo, Liroca, que atravessa décadas num combate eterno contra o medo. É um personagem perfeito para explicar a implicação de uma cultura.

Para completar, Borges dá uma lição de antropologia cultural ao narrar o drama temporal de Pedro Damián, no conto A outra Morte (no livro O Aleph): “Em vão me repeti que um homem acossado por um ato de covardia é mais complexo (...) que um homem meramente corajoso. O gaúcho Martin Fierro, pensei, é menos, memorável que Lord Jim ou Razumov. Sim, mas Damián, como gaúcho, tinha obrigação de ser Martin Fierro.”
(III)

Um outro ponto. Muitos intelectuais se acham literalmente em uma cruzada pela “modernização intelectual da província”, como se um tipo de produção (ligada a cultura gaúcha), fosse excludente com o outro, mais urbano, ou como queiram, mais sofisticado. Pior que isto, afirmam que a cultura gaúcha “engessa” as demais. Estranho. Aí parece haver outro grande equívoco, pois não serão as mesmas pessoas que vão produzir as diferentes obras. Existe a escolha. E, além disso, temos excelentes escritores, excelentes filósofos, historiadores. Um cinema bem urbano que se afirma. Excelentes bandas de rock. Bem, se ainda assim não podemos competir culturalmente (como insistem estes intelectuais) com São Paulo, seria de se sugerir que estes intelectuais críticos tirassem do forno suas excelentes e pós-modernas contribuições para ombrearmos com outras províncias. Mas verdadeiramente não acho que um tipo de produção prejudique o outro. Não pode ser esquecido que muitos autores que abordaram a cultura gaúcha (pampeana) tiveram alto nível crítico e alta qualidade literária, tais como Pedro Wayne, Cyro Martins, Ivan de Pedro Martins, Érico Veríssimo, Mario Arregui (Uruguay), Brasil Dubal, Alcy Cheiuche, Sérgio Metz, Tabajara Ruas, etc. Por outro lado, um bom número de músicos gauchescos tem excelente nível musical e de letras. Nei Lisboa disse um dia que gostaria de ver uma ponte entre a musica urbana do Rio Grande e Jayme Caetano Braun.

Também não pode ser esquecido que a Academia (RS) praticamente esqueceu a “cultura guasca” (interessante que mais de 1500 estudantes universitários no Rio Grande do Sul participam como ginetes em rodeios gaúchos).
(IV)
E nós, qual a nossa relação com o gaúcho do campo do passado ou de agora? Ora, três décadas atrás, 50% da população era do campo. Difícil alguém metropolitano “puro”. Luciana Hartmann (2004) enfatiza esta passagem de valores em um estupendo trabalho sobre a fronteira. Quase todos os rio-grandenses, temos um ou outro parente originário de zona rural. Utilizamos, sem nos percebermos, de várias expressões derivadas da lida campeira. O gaúcho, quando surge com este nome, é apenas um símbolo clímax, mas na verdade desde 1600, homens de bota de garrão de potro, poncho e a cavalo andam pelos pampas. Criaram palavras (expressões) ou as adaptaram, criaram danças ou as adaptaram, criaram equipamentos como o laço, ou os adaptaram, tiveram mulheres (e estas estão incluídas neste caudal cultural), tiveram filhos, domaram, carretearam, tropearam, influíram ou se deixaram influenciar pelos pequenos povoados. Foram para a guerra, foram bucha de canhão para construção de países, lutaram, roubaram, foram roubados, mataram, morreram, tiveram medo, tiveram coragem, criaram um povo, passaram todas as agruras e em algum momento foram felizes em uma pulperia, num repente, ou com uma china. Criaram uma cultura. Não se tratava de um tipo estanque, o gaúcho, entendam por favor, isto é simbólico, mas de comunidades inteiras em plena dinâmica. Mulheres, homens, crianças, falando a mesma linguagem. Gostando dos mesmos alimentos. Nomeando os objetos e fatos cotidianos da mesma maneira. Bem, esta cultura, estas palavras, este modus vivendi, para o bem ou para o mal, produtos e subprodutos de tudo isto, chegaram até nós. Não inventamos esta relação. Ela esta em nossa pele.
(V)
A última questão é a comemoração em si da Revolução Farroupilha. Tão criticada. Bem eu penso com relação a comemoração que trata-se de uma ato, uma intenção de comemorar um modo ideal de agir. Rebeldia outra vez. Mostrar descontentamento, mostrar a capacidade de dizer que se pode ficar descontente com os governos. É uma festa popular. Na época tinha vários contextos entre os quais, ninguém pode negar, a implantação da república no Brasil, a abolição da escravatura, mudar as condições econômicas e sociais da região (escolas, pontes, impostos, etc). Se havia em alguém, camuflado, intenções menos nobres, não é isso que vamos comemorar. Se não foi popular, precisou de apoio popular. Vamos comemorar a capacidade de se opor a alguém mais forte. Vamos mostrar isto pra os jovens.
Finalizando, Rousseau, destoante da europeização etnocêntrica em marcha no século Dezoito, , previu:“(...) reina entre nossos costumes uma uniformidade desprezível e enganosa e parece que todos os espíritos se fundiram num mesmo molde: (...) incessantemente seguem-se os usos (moda) e não o próprio gênio (caráter pessoal). Não se ousa mais parecer tal como se é, e , sob tal coerção perpétua,...” o rebanho agora, querem nossos intelectuais, tornar-se global.
Deixem as crianças, jovens e velhos comemorarem nosso gauchismo, nativismo, campeirismo ou como quiserem chamar. Amamos a planície e os cavalos.
Sobre o autor: Evaldo Muñoz Braz é pesquisador sobre a cultura gaúcha. Autor de Manifesto Gaúcho e Retratos do Gaúcho Antigo, a gênese de uma cultura.
Origem: Enviado pelo autor

Proposta do Blogue

Normalmente quando se fala em gauchismo logo se pensa em temas artísticos e campeiros, no entanto, gauchismo compreende isso e muito mais. O debate, para ser completo, deve atingir temas como ideologia gauchista, invasão cultural, globalização, contexto mundial, pacto federativo, economia, educação, enfim, tudo aquilo que compreende a construção de um projeto de Estado para o Rio Grande. Um projeto muito mais ambicioso que a sina provinciana, mas que vislumbre uma autonomia ideológica e administrativa para os gaúchos.Sendo assim a proposta do "Adaga e Lança" é contribuir para a construção e divulgação de um gauchismo científico, propondo artigos e reunindo textos, interessantes a temática, nas áreas da sociologia, política e antropologia, bem como servir de canal de pesquisa para os interessados no assunto.