PERSONAGENS DO TRADICIONALISMO - Paixão Côrtes



João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes (Santana do Livramento, 12 de julho de 1927) é um folclorista, compositor, radialista e pesquisador brasileiro. É formado em Agronomia.
Ex-aluno do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, Paixão Côrtes é um personagem decisivo da cultura gaúcha e do movimento tradicionalista no Rio Grande do Sul, do qual foi um dos formuladores, juntamente com Luiz Carlos Barbosa Lessa e Glauco Saraiva. Juntos, partiram para a pesquisa de campo, viajando pelo interior, para recuperar traços da cultura do Rio Grande.

Em 1948, organizou e fundou o CTG 35 e, em 1953, fundou o pioneiro Conjunto Folclórico Tropeiros da Tradição.

Em 1956, Inezita Barroso gravou as músicas tradicionais gaúchas Chimarrita-balão, Balaio, Maçanico e Quero-Mana, Tirana do Lenço, Rilo, Xote Sete Voltas, Xote Inglês, Xote Carreirinha, Vaneira Marcada, recolhidas por Paixão Cortes e Barbosa Lessa.

Em 1958, Paixão Côrtes apresentou-se no Olympia de Paris, no palco da Universidade de Sorbonne, no Hotel de Ville, no Teatro Alhambra, além de clubes noturnos e cabarés.

Em 1962, Inezita Barroso gravou as composições Tatu e Pezinho, recolhidas por Paixão Côrtes e Barbosa Lessa. No mesmo ano, recebeu o prêmio de Melhor Realização Folclórica Nacional. Em 1964, apresentou-se na Alemanha, na Feira Mundial de Transportes e Comunicação, na cidade de Munique. Recebeu ainda, no mesmo ano, o prêmio de Melhor Cantor Masculino de Folclore do Brasil.

Em 1986, apresentou-se durante um mês na Inglaterra, divulgando traduções de seus livros para o inglês.

Em 1992, a estátua do Laçador, do escultor Antônio Caringi, para a qual Paixão Cortes posou em 1954, foi escolhida como símbolo da cidade de Porto Alegre.

Em 2001 proferiu palestra sobre a música gaúcha no VII Encontro Nacional de Pesquisadores da MPB, realizado no Teatro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Em 2003 lançou seu novo manual, com mais danças, derivadas do primeiro. Por exemplo, Valsa da mão trocada, Mazurca Marcada, Mazurca Galopeada, Sarna, Grachaim.

Discografia
s/d - Xote carreirinho / Jacaré
1961 - O folclore do pampa
1964 - Tradição e folclore do Sul
1970 - Paixão Côrtes (sobre o folclore gaúcho)
1977 - Do folk aos novos rumos
1978 - Paixão Côrtes especial
1980 - Hino ao Rio Grande
1982 - Cantando e bailando
1982 - Cantares e sapateios gaúchos
Bibliografia
1955 - Suplemento musical do Manual de danças gaúchas (com Barbosa Lessa)
1956 - Manual de danças gaúchas (com Barbosa Lessa)
1959 - Festança na querência (sobre folclore gaúcho)
1960 - Terno de Reis - Cantigas do Natal gaúcho
1960 - Folclore musical do pampa - Músicas e letras
1961 - Vestimenta do gaúcho
1966 - Gaúchos de faca na bota - Uma dança alemã no folclore gauchesco
1975 - Danças e andanças da tradição gaúcha (com Barbosa Lessa)
1985 - Aspectos da música e fonografia gaúcha
1994 - O Laçador, a história de um símbolo
1994 - colaborou na produção da coletânea A música de Porto Alegre - as origens 2001 - Músicas, Discos e Cantares - Um resgate da história fonográfica do Rio Grande do Sul

Origem: Wikiédia.

I - Em Busca do Tempo Perdido: O Movimento Tradicionalista Gaúcho (PARTE I)

Dois aspectos são comuns àqueles que, a partir de perspectivas diversas, cultuam as tradições gaúchas: a presença do campo, mais especificamente da região da Campanha, localizada no sudoeste do Rio Grande do Sul, na fronteira com Argentina e Uruguai; e a figura do gaúcho, homem livre e errante, que vagueia soberano em seu cavalo, tendo como interlocutor privilegiado a natureza das vastas planícies dessa área pastoril (Oliven, 1988).Esse culto à tradição passou por diversos momentos. Começou em meados do século XIX, quando não existia mais a figura marginal desse gaúcho do passado, gradativamente transformado em peão de estância. Por volta de 1870 o Rio Grande do Sul experimentou modificações econômicas - com o cercamento dos campos, o surgimento de novas raças de gado e a ampliação da rede viária - que atingiram e modernizaram a Campanha, simplificando sua pecuária e eliminando certas atividades servis, como as dos posteiros e dos agregados, expulsos dos campos em grande número. A implantação de frigoríficos estrangeiros e a decadência das chasqueadas gaúchas acentuaram esse processo a partir do fim da Primeira Guerra Mundial, quando começou a aparecer o ‘gaúcho a pé’, expressão usada nos romances sociais de Cyro Martins.
Em meados do século XIX a figura do gaúcho estava praticamente extinta. Por isso, estava também em condições de ressurgir como instrumento ideológico de sustentação dos que a tinham destruído (Gonzaga, 1980, pp. 118-119). Em 1868, um grupo de intelectuais e escritores furìdou em Porto Alegre o Partenon Literário, sociedade de letrados que, através da exaltação da temática regional, tentou juntar os modelos culturais vigentes na Europa e a visão positivista da oligarquia rio-grandense. Vejamos o que diz Sergius Gonzaga:
“Caberia aos integrantes da Sociedade Partenon o esforço para louvação dos tipos representativos mais caros à. classe dirigente. Sedimenta-se ali o início da apologia de figuras heróicas, alçadas à condição de símbolos da grandeza do povo rio-grandense. Encontra-se na sedição farroupilha os paradigmas de honra, liberdade e igualdade que se tornariam inerentes ao futuro mito do gaúcho, dissolvendo-se os motivos econômicos e as diferenças entre as classes, existentes no conflito. A configuração dos heróis não era ainda a do gaúcho estilizado e ‘glamourizado’, mas o vetor encomiástico já se fazia presente. Compreende-se a apologia em função do surgimento nas cidades, em especial Porto Alegre, de jovens ‘ilustrados’- oriundos dos setores intermediários - que iriam usar as ‘belas letras’ como alavanca para sua escalada. Repetia-se um fenômeno de extensão nacional: o processo de mobilidade social dessa inteligentsia de origem bastarda condicionava-se à intimidade que pudesse ter com os detentores do poder. Articulava-se uma troca: ascensão, prestigio ou simples reconhecimento cambiados por subideólogos, aptos a oferecer fórmulas (amenas à oligarquia) de representação da realidade, e por artistas, capazes de pôr em prosa e verso as qualidades varonis dessa mesma oligarquia” (Gonzaga, 1980, pp. 125-126).Embora os literatos do Partenon tenham exaltado a temática gaúcha, só em 1898 surgiu a primeira agremiação tradicionalista, o Grêmio Gaúcho de Porto Alegre, voltado para a promoção de festas, desfiles de cavalarianos, palestras e outras atividades ligadas ao culto das tradições. A fundação da entidade foi obra de João Cezimbra Jacques, republicano, positivista, homem de origens modestas que lutara como voluntário na Guerra do Paraguai e recebera a patente de major do Exército. Segundo ele, o Grêmio tinha como objetivo“organizar o quadro das comemorações dos acontecimentos grandiosos de nossa terra (...) Pensamos que esta patriótica agremiação não é destinada a manter na sociedade moderna usos e costumes que estão abolidos pela nossa evolução natural e que a época em a qual vivemos não comporta mais, e nem é tampouco ela -uma associação, tendo por fim trazer para objeto de suas práticas jogos e elementos recreativos do tempo corrente e importados do estrangeiro. Nem uma coisa nem outra. Mas é ela, sim, uma associação destinada a manter o cunho de nosso glorioso Estado e conseqüentemente as nossas grandiosas tradições integralmente por meio de comemorações regulares dos acontecimentos que tornaram o sul-rio-grandense um povo célebre diante, não só de nossa nacionalidade, como do estrangeiro; por meio de solenidades ou festas que não excluem os usos e costumes, os jogos ou diversões do tempo presente; porém, figurando nelas, tanto quanto possível, os bons usos e costumes, os jogos e diversões do passado; por meio de solenidades que não só relembrem e elogiem o acontecimento notável a comemorar, pelo verbo ou pelo discurso, como por meio de representação de atos, tais como canções populares, danças, exercícios e mais práticas dignas, em que os executores se apresentem com o traje e utensílios portáteis, tais como os de usos gauchescos” (Jacques,1979, pp. 56 e 58).
Além de enfatizar o culto às tradições, a citação trata de questões que, na época, despontavam: a existência de costumes superados por “nossa evolução natural”, a problemática das práticas trazidas “do estrangeiro”, a existência de “bons” usos e costumes etc. Em outros termos, as mesmas questões seriam recolocadas mais tarde.
Havia dois aspectos comuns ao Partenon Literário e ao Grêmio Gaúcho. O primeiro: ambos eram formados por pessoas de origens modestas, não detentoras de terras ou de capital. Como ocorreu em outras partes do Brasil e do mundo, a atividade intelectual era, ao lado das carreiras militar e política, uma das poucas formas de ascensão disponíveis a pessoas oriundas das camadas depossuídas e desejosas de ingressar na esfera do poder. As condições econômicas, sociais e políticas ainda não permitiam que se formasse uma camada de intelectuais dotada de relativa autonomia.O segundo aspecto era a preocupação com a questão da tradição e da modernidade, presente em ambas as entidades, embora sob formas diferentes. Ao mesmo tempo em que tinha como modelo o que considerava mais avançado da Europa culta, o Partenon evocava a figura tradicional do gaúcho e louvava seus abalados valores. O Grêmio Gaúcho, nas palavras de seu fundador, procurava manter as tradições, mas sem excluir os costumes do presente. Nos dois casos, um mesmo pano de fundo: um estado em transformação, no qual a tensão entre passado e presente começava a se fazer sentir.
No ano de criação do Grêmio Gaúcho, o líder republicano e positivista Borges de Medeiros assumiu pela primeira vez a presidência do Rio Grande do Sul, iniciando um domínio sobre a-política local que duraria trinta anos. A Proclamação da República levara ao poder o Partido Republicano Rio-Grandense, no qual era pequena a influência da oligarquia pecuária da Campanha. O novo grupo dominante, embora também pertencente à elite econômica, provinha do Norte do estado e era formado por jovens que haviam estudado em universidades do Centro do país. Positivistas, dotados de um projeto modernizador e autoritário, consideravam o despotismo esclarecido como a melhor estratégia para organizar a sociedade local. Auguste Comte era favorável à existência de “pequenas pátrias” com não mais do que três milhões de habitantes (na época da Proclamação da República, o Rio Grande do Sul tinha aproximadamente um milhão). Como, naquele momento, as províncias não tinham condições de se tomar independentes, os positivistas brasileiros, interpretando a idéia de Comte, defendiam a adoção de um federalismo radical. Para Júlio de Castilhos, fundador e ideólogo do Partido Republicano Rio-Grandense, isso implicava “o não-reconhecimento de uma única nação brasileira, mas de várias nações brasileiras provisoriamente organizadas sob uma federação; a independência de cada estado para organizar-se de forma republicana sem nenhuma limitação por parte da Constituição Federal” (Pinto, 1986, p. 36).
Coerente com a idéia positivista de que o progresso só poderia ser alcançado se a ordem fosse mantida, o lema de Júlio de Castilhos era “conservar melhorando”. Pouco antes da Proclamação da República, ele defendeu em A Federação,jornal de seu partido, que o 20 de setembro (data de eclosão da Revolução Farroupilha de 1835-1845) fosse adotado como Dia do Gaúcho: “A comemoração do 20 de setembro tem, pois, este sentimento, significando que o passado é a fonte em que o presente se inspira para delinear o futuro”. Com o advento da República, e a ascensão de seu partido ao poder no Rio Grande, Castilhos elaborou uma constituição estadual de forte inspiração positivista, que definia como “insígnias oficiais do estado as do pavilhão tricolor da malograda República Rio-Grandense”.
Nas Américas, assim como na Europa, a associação entre passado e presente foi uma constante em projetos modernizadores ligados à criação de estados nacionais ou à organização da sociedade. Se a nação é “uma comunidade de sentimento que normalmente tende a produzir um Estado próprio” (Weber, 1982, p. 207), antigas tradições reais ou inventadas - precisam ser invocadas para dar fundamento ‘natural’ às identidades em vias de criação, obscurecendo-se assim o caráter artificial e recente dos Estados nacionais. Essa dialética entre velho e novo, passado e presente, tradição e modernidade, foi uma constante nos processos que estamos analisando no Rio Grande do Sul. A fundação do Grêmio Gaúcho foi seguida pela criação de mais cinco entidades, consideradas pioneiras pelos tradicionalistas (1) União Gaúcha de Pelotas (fundada em 1899 por Simões Lopes Neto, grande escritor regionalista), Centro Gaúcho de Bagé (1899), Grêmio Gaúcho de Santa Maria (1901), Sociedade Gaúcha Lombagrandense (fundada em 1938 em área de colonização alemã) e Clube Farroupilha de Ijuí (fundado em 1943 em área de colonização alemã e italiana).

CONTINUA EM OUTRA POSTAGEM

Autor: Ruben Oliven
Fonte: http://www.anpocs.org.br/

A peculiaridade de Barbosa Lessa para o gauchismo

O Gauchismo vem se formando desde o século XIX com o Partenon Literário, Grêmio Gaúcho e diversos autores que resgataram e idealizaram a figura do gaúcho.O Movimento Tradicionalista Gaúcho foi fundado somente em meados do século XX com a liderança de Paixão Cortês e os cavaleiros julianos. Contudo o Primeiro a tentar constuir uma base científica ao movimento tradicionalista (antes dele as elaborações eram somente literárias) foi Barbosa Lessa no artigo intitulado "O Sentido e o Valor do Tradicionalismo". Por isso ele se torna para nós, referência na discussão do tema gauchista tal como propomos, a saber, a elaboração de uma base cientifica ao movimento.



Resistência Cultural!

O fenômeno da Globalização, sem dúvida alguma, surgiu como uma forma de ampliação dos interesses do capital, onde capitalizar os lucros e socializar os prejuízos é o principal objetivo de seus protagonistas. Nessa esteira, os países periféricos continuam na submissão colonialista ao chamado primeiro mundo, principalmente na esfera econômica e cultural. Para justificar suas pretensões, este constrói teses como a do pensamento único - o seu, naturalmente, - e falácias como a do Fim da História, com o intuito de que esqueçamos o nosso passado, as nossas raízes, em prol das benesses da globalização neoliberal. E a mão invisível dos Estados do lado de cá deve sempre atender às conveniências do mercado de lá, em detrimento dos interesses legítimos de seus cidadãos de segunda classe: o povo. E até a Lei Maior dos pobres países deve se submeter à essa Nova Ordem Mundial. A cultura dos colonizados deve desaparecer e abrir oportunidades para a exploração econômica da pretensa cultura hegemônica mundial, imposta a um mundo subserviente a esses e a outros interesses dos eternos colonizadores. O nivelamento cultural apregoado pelo mercado sem fronteiras tenta soterrar centenárias tradições regionais, locais, em nome de um suposto e duvidoso comércio comum. Diante de tais interesses, aos cidadãos restam duas opções: aceitar passivamente as perniciosas imposições ou resistir, defendendo as identidades culturais de suas aldeias. Ao Movimento Tradicionalista Gaúcho Brasileiro, no entanto, diante das suas cláusulas pétreas de índole moral-cultural, contidas na sua Carta de Princípios, não lhe é conferida escolha alguma. Deverá continuar observando, fiscalizando e promovendo a Filosofia Tradicionalista entre as suas entidades filiadas, sem rendição a tais interesses econômicos, globalizados ou não. Aos cidadãos tradicionalistas, a estes é garantido o exercício legítimo do direito de resistência cultural, em nome dos mais altos interesses de todo o Bravo Povo Gaúcho Brasileiro!
Origem: sitio Bombacha Larga

Conceitos básicos de sociedade e cultura

Este texto compreende sete crônicas publicadas por Barbosa Lessa no periódico "Extra-Classe", do Sindicato dos Professores do RS.As crônicas constituintes desse texto são 2000 e 2001

1
Como o tempo passa correndo, bah! Parece que foi ontem que o editor Marcelo Menna Barreto, levando em conta meu gosto pela história, me fez o inesperado e honroso convite para que eu me tornasse um colaborador permanente do Extra Classe, numa nova coluna que versaria sobre Imagens do Passado. Pois lá se foram quatro anos! Quatro anos de gostoso convívio com leitores a quem não conheço pessoalmente mas que, sem dúvida, já fazem parte do lado mais positivo de minha vida.
Comecei com “A primeira escola do Rio Grande do Sul”, versando sobre o Colégio das Servas de Maria, fundado em 1778 pelo governador José Marcelino. Redação e leitura fáceis, descompromissadas, pelo fato de tanto eu quanto o leitor sermos meros espectadores de um episódio ocorrido há mais de dois séculos. A história é algo que já aconteceu.
Na última crônica, porém, houve uma virada que até me surpreendeu. Ao versar sobre o rico cabedal de provérbios que nos foram legados pelas gerações anteriores, grande parte dos quais ainda vigentes, tanto eu quanto o leitor fomos induzidos a tomar um posicionamento pró ou contra os ensinamentos pretendidos pela cultura popular. Não podemos ser meros espectadores. A cultura é algo que está acontecendo em nosso dia-a-dia.
Então me dei conta de que não tem havido preocupação por transmitir ao indivíduo comum um mínimo de conceitos básicos que evidenciam o papel que ele desempenha em determinada cultura. Se ele já aprendeu o ABC e as quatro operações, já está preparado para o que der e vier. Mas não é assim, não. Por isso, peço licença ao Extra Classe para ir preenchendo meu espaço com alguns tópicos fundamentais para melhor compreensão do próprio passado. Sei que os doutos, os eruditos, até podem se rir do primarismo de minhas “lições”. Mas também sei que muita gente boa poderá exclamar “ah é? e eu que não sabia!”
Começo me valendo da autoridade de mestre Emílio Willems para definir Sociedade: “Conjunto relativamente complexo de indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades, permanentemente associados e equipados de padrões culturais comuns, próprios para garantir a continuidade do todo e a realização de seus ideais”. É isso aí.
O homem, ao nascer, traz consigo uma herança física, isto é, uma série de caracteres genéticos e um comportamento individual instintivo que o tornam um animal específico, diferente dos outros animais. Mas ele também irá receber uma herança social, isto é, uma série de símbolos, idéias, atitudes, equipamentos e técnicas que irão determinar o seu comportamento dentro do grupo social a que pertence. (continua no próximo número)
2
Cultura é tudo aquilo que, não sendo estrutura biológica nem comportamento instintivo, se acrescenta à herança física do indivíduo. Por exemplo: a criança começa emitindo vagidos e outros sons rudimentares, até que esses sons se transformem em linguagem articulada, com significados precisos; e então a Língua já será expressão cultural. Cultura também é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza, operando sobre o ambiente que o cerca. Por exemplo: na mata há galhos, folhas, raízes, cipós; quando o índio pega de um galho de guatambu e o retesa com cipós, a flecha já será uma expressão cultural.
Cultura e Sociedade são reciprocamente dependentes. É a posse de uma Cultura que dá à sociedade sua unidade psicológica e permite que os indivíduos vivam em conjunto com um mínimo de ambigüidades. E é a Sociedade, por seu comportamento coletivo, que dá à cultura uma manifestação expressa, objetiva, assimilável pelo indivíduo e transmissível de geração a geração.
Para fins puramente conceptuais, podemos colocar de um lado a cultura material, ergológica, e, de outro, a cultura imaterial. A primeira, que se identifica com o conceito de Civilização, é representada pelos equipamentos, artefatos e técnicas de que o grupo social se serve para atuar sobre a natureza. A segunda se constitui num sistema de símbolos, idéias, atitudes, reações emocionais condicionadas e maneiras socialmente padronizadas.Na base disso tudo está a comunicação, que é o processo pelo qual o ser humano – originalmente uma unidade física – se integra a uma unidade maior, a comunidade, e o processo pelo qual se transmitem numa sociedade, as idéias, sentimentos, estruturas sociais, bens e mercadorias.
A comunicação seria a coisa mais fácil deste mundo se não houvesse, para complicá-la, a competição – a começar pela competição ecológica, que é a disputa dos recursos naturais pelos seres vivos. Mas a cultura brasileira não ignora o fenômeno, e tanto assim que já sacramentou um provérbio: “Quem não se comunica, se trumbica”.
3
Mesmo que não tenha conhecimento disso, cada cidadão ou cidadã faz parte de uma Sociedade e de uma Cultura, que evoluem para cá ou para lá de acordo com a votação diária (e geralmente inconsciente) de todo o eleitorado constituinte. Para que a eleição se torne mais clara é que vimos arrolando alguns conceitos básicos que influem diretamente no exercício da cidadania.Já dissemos que Comunicação é o processo pelo qual idéias, sentimentos, bens e mercadorias se transmitem de indivíduo para indivíduo, permitindo que o ser humano – originalmente uma unidade física – se integre a uma unidade maior, que é a comunidade.
Agora nos referimos à difusão, que é o processo pelo qual os elementos culturais se propagam dentro da comunidade em que tiveram origem, ou, fora, em sociedades culturalmente diferentes. Contato cultural é a relação estabelecida por tais grupos ou sociedades. Conflito cultural é a incompatibilidade entre valores culturais quando ocorre o contato.
Acomodação (antítese da competição) é todo e qualquer processo que conduz à cessação de conflitos. Aculturação significa as mudanças ocorridas na cultura de dois ou mais grupos quando postos em contato direto e contínuo. Desintegração é a desarticulação de padrões de uma determinada cultura, motivada pela introdução de elementos culturais antagônicos, incompatíveis com a ordem pré-existente. Reintegração é a possível fase que se segue ao conflito e à desintegração, podendo implicar no obscurecimento total ou parcial da fisionomia anterior, ou na fusão de certa parte de seus elementos em uma configuração nova.
Tradição (do latim traditio) significa a entrega de algo, sendo em tal sentido adotada pela jurisprudência para caracterizar a concreta passagem de um bem à propriedade de outrém, como ocorre numa promessa de compra e venda ou numa herança norteada pelo testamento do finado. Com um leve sentido simbólico, em nossa temática ela significa a entrega da cultura de uma determinada geração à geração subseqüente.
A atitude tradicionalista tende a valorizar a herança social transmitida pelos antepassados, com menosprezo pelas novidades ainda não sancionadas pela experiência. Em contraste com tal postura, a atitude consumista tende a valorizar e consumir, imediatamente, renovados bens e renovadas idéias, com menosprezo pelos critérios do passado.
Em qual categoria você acha que se situa? É tradicionalista? Consumista? Ou prefere votar em branco, na eleição cultural, deixando a coisa rolar para ver como é que fica?
4
Desde o alvorecer da humanidade, durante milênios, e ainda hoje, boa parte da cultura é feita e transmitida espontaneamente, por assim dizer instintivamente; e, no tocante, à cultura material, ergológica, utilizam-se os próprios meios fornecidos pela natureza, ou instrumentos rudimentares ao alcance de qualquer um. É mínima a sofisticação tecnológica. Os problemas são resolvidos à base da tradição, transmitida de geração a geração pela família e pelo grupo local.
A transmissão de ensinamentos se faz no dia-a-dia, não existindo nenhuma categoria profissional que assuma conscientemente a missão de ensinar. As especialidades ocupacionais são transmitidas naturalmente pelas mulheres mais velhas às mais jovens, pelos velhos guerreiros aos principiantes, pelos experimentados caçadores aos calouros, e assim por diante. Todos ensinam, naquelas áreas de sua competência. Daí resultando uma espécie de cultura comunitária, a que William Thoms deu o nome de “folk-lore”, de difícil tradução para o português, algo assim como “sabedoria do povo”. Em sua trajetória ao longo dos anos o “folk-lore” tem se expressado fundamentalmente através da linguagem oral e, freqüentemente, vale-se de ensinamentos concisos – os provérbios – e de construções teóricas super-compactas, capazes de serem expressas por uma ou duas palavras – os mitos.
Na cultura espontânea, ou folk, a maioria das pessoas sobrevive manipulando coisas: a flecha, o anzol, a enxada, o tear, a agulha, etc. O artesão se caracteriza como produtor de coisas úteis – que podem ser, também, belas. Seu sistema de trabalho, manual, aproveita matéria-prima gratuita ou de pequeno valor pecuniário. Uma única pessoa, quando muito auxiliada por aprendizes, realiza o trabalho do princípio ao fim e cada peça produzida resulta única, reveladora de qualidades nitidamente pessoais.
Neste estágio – quando ainda não apareceu uma instituição especificamente voltada para a transmissão de ensinamentos – pode-se dizer que toda a educação é “folclórica”, ou todo o folclore é “educacional”.
Já então podemos conceituar Educação em seu sentido lato: é o processo pelo qual o indivíduo adquire, pela aprendizagem, os hábitos que o capacitam a viver de acordo com os padrões de uma determinada sociedade. Tal aprendizagem começa na primeira infância e se vai pela vida afora. A sabedoria popular já o disse: “Vivendo e aprendendo...” Mas a explicação dos fenômenos da natureza e da sociedade ainda é modesta, resultando na proeminência de uma área ainda difusa onde predominam as forças sobrenaturais. Os mitos, em tal circunstância, serão arquétipos acima do homem, no olimpo dos deuses ou configurados nas expressões violentas da natureza.
5
Historicamente, a Cultura Cultivada surgiu de minorias privilegiadas que, tendo já superado o nível de produção para a simples sobrevivência, podiam agora entreter-se em exercícios de espírito. Surgiu com os papiros dos sacerdotes do antigo Egito, com os desenhos dos primeiros geômetras, e ganhou força quando instituições como a Igreja ou a Escola tomaram a si a tarefa consciente de transmitir conhecimentos de cunho humanístico, isto é, de valorização do ser humano. Através de mensagens desenhadas, pôde uma geração transmitir seus conhecimentos à geração seguinte sem a necessidade do contato pessoal.
A partir da escrita fonética, imitando os sons da fala humana, e dos tipos móveis de Gutenberg, reproduzindo-os em muitas cópias, a comunicação entra num ritmo espantoso, rompe-se a delimitação de territórios culturais, torna-se mais intenso o contato entre culturas diversas. O indivíduo letrado desgarra-se do grupo local a que pertence e, a cada novo livro que lê, há uma nova alternativa proposta ao seu universo de conhecimentos. A experiência do velho é contestada pelo jovem pesquisador, a ebulição espiritual descortina novos problemas e a inteligência busca resolvê-los.
Se a Cultura Espontânea manipulava, principalmente, coisas, já a Cultura Cultivada passa a manipular, cada ez mais, símbolos – a começar pelas letras ou signos de comunicação escrita. A divisão do trabalho, crescente, vai restringindo o núcleo de conhecimentos comuns a todos e vai multiplicando o segmento das especialidades. Surge a Escola como grande veículo de comunicação social. E a Educação, agora em sentido restrito, passa a ser o processo pelo qual a sociedade institui mecanismos para transmitir, à criança e ao jovem, os padrões de comportamento e o conhecimento das técnicas e ciências, sob regras pedagógicas expressas.
A educação formal, por sua própria essência, ignora a cultura folk, e toda sua sistemática consiste em ir afastando a criança e o adolescente, cada vez mais, dos padrões da sociedade espontânea. De tempos em tempos o professor põe à prova se o aluno já se afastou suficientemente: se este vence tal prova, passa; se não, roda, até aprender. E assim a sociedade vai se dividindo em fragmentos hierarquizados de acordo com a soma de conhecimentos formalmente adquiridos: pré-escolar, primeiro grau, segundo grau, etc. O status é dado pelo respectivo diploma. A liderança política da nação é assumida pelos bacharéis. E o analfabeto, coitado, nem sequer tinha direito a voto: era castrado em sua própria cidadania.
Mas no frigir dos ovos, sente-se que tais tensões causaram um extraordinário bem à Nação.
6
Relembro a definição de Sociedade, que já lhes repassei, servindo-me do mestre Emilio Willems: “Conjunto de indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades, permanentemente associados e equipados de padrões culturais comuns, próprios para garantir a continuidade de todo e a realização de seus ideais.” Esses padrões culturais comuns a todos, encontráveis mesmo nas tribos mais primitivas, são tecnicamente chamados de Universais. São a língua materna, a aparência das moradias, as peças dos artesãos produzindo coisas úteis, o comportamento diante dos altares consagrados aos deuses, etc. E cumpre fazer um comentário acerca de “todas as idades”. Não havia um estágio jovem na evolução etária do indivíduo. A criança era livre e irresponsável até o momento em que – por determinação fisiológica – se via enfrentando os “ritos de passagem” e instantaneamente transferida para a categoria de adulto. Por outro lado, reconhecia-se um estágio posterior à velhice: a vida na morte. Os mortos eram convidados para as cerimônias tribais, intercediam junto aos deuses, davam conselhos, enfim animavam todos os rituais de magia.

Além dos Universais, havia as Especialidades, compartilhadas por todos os indivíduos de uma mesma categoria. Por exemplo, os conhecimentos práticos reservados às mulheres no tocante aos cuidados das crianças e ao preparo de alimentos. Universais e Especialidades formavam o núcleo, coeso, do grupo local. As normas eram transmitidas com clareza pela Família, ditadas pela Tradição e quase sempre apoiadas pelos santos e outras super-entidades imateriais. E assim se completava o panorama da Cultura Espontânea.
Ao ocorrer o aparecimento da escrita fonética (imitando os sons da fala humana) e o impacto dos tipos móveis de Gutenberg imprimindo cópias e mais cópias de determinada mensagem, o panorama se modificou profundamente. A principal fonte de comunicação se transferia da família para a Escola. O indivíduo letrado desgarrava-se do grupo local a que pertencia e, a cada novo livro lido, novas Alternativas de comportamento iam sendo sugeridas para gravitarem em torno dos Universais e Especialidades. Os mitos, antes pertencentes a um mundo imaginário, passaram a ser figuras de carne e osso: os heróis nacionais. Ao lado do artesão, produtor de coisas úteis, foi ganhando aplauso o artista, produtor de coisas belas. E fortes aplausos para o professor, o inventor, o escritor, o orador, levaram em frente a Cultura Cultivada. Em que o pobre do analfabeto só valia pela força animal de seus braços.
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A maior revolução ainda estava por chegar: a Cultura de Massa. Ela evoluiu da imprensa para o rádio e chegou à gravação de discos, aos programas de rádio, às telenovelas, ao telefone celular. Lado a lado, o analfabeto e o doutor aplaudiram a “novela das oito”. Se, antes, a Sociedade Espontânea manipulava objetos e a Sociedade Cultivada difundia símbolos, já agora a Sociedade de Consumo – fruto e fator da Cultura de Massa – manipulava mercadorias, bens comercializáveis. Evoluindo do campo artesanal, o operário industrial se põe a serviço do empresário e promete-lhe auferição de bons lucros. Mas o empresário não depende exclusivamente do trabalhador: ali está a seu lado o profissional de Marketing, realizando pesquisas e indicando quais as mais promissoras fatias do mercado consumidor. E então é redescoberto o falecido jovem! Numericamente muito expressivo, mas já sem o apoio da Família e quase perdendo o apoio da Escola para a escolha das melhores Alternativas. As façanhas dos heróis nacionais já não o comovem, como também não o comovem os rituais de adoração dos deuses. Quem arranca suspiros de veneração, agora, são os heróis da Cultura de Massa: atores de televisão, craques de futebol, sensacionais cantores, belas modelos lançando novidades, e assim por diante. E se o jovem quiser um contato pessoal com eles, não há problema: ali está a Internet inteiramente à disposição.Como qualquer outro mortal dos dias de hoje, guardo em meu ser social um tantinho da Cultura Espontânea, apego-me ao que me foi ensinado pela Cultura Cultivada e, no fundo, cada vez mais admiro as proezas das Cultura de Massa. Mas tenho passado por surpresas de tontear. Há cerca de vinte dias encontrei um jovem amigo, que me dispensa sincera afeição, e ele me informou que estava disposto a pedir demissão do emprego que eu lhe havia conseguido. Com seriedade, eu lhe disse: “Pensa bem, Fulano. Conheço por aí muito engenheiro, advogado, até médico, que anda matando cachorro a grito e não consegue emprego.” E ele me arrasou ironicamente: “Quem mandou eles estudarem? Agora, agüentem...”
Autor: Barbosa Lessa