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Contexto mundial e o meio ambiente



É impossivel negar que a questão ambiental é um dos grandes fatores causadores das modificações do contexto mundial das nações no século XXI. o planeta não é o mesmo e as relações que se dão nele também não.
Primeiramente porque os recursos naturais já não são abastados como outrora, se no inicio do século era possível comprar matéria prima, aparentemente infinita, a preço de banana, dos países subdesenvolvidos, hoje em dia nem mesmo essas regiões possuem matéria em quantia, a dificuldade é maior para extração dos recursos e o custo se torna alto.
Além da escassez de matéria prima, no século XXI nenhuma nação pode se dar ao luxo de poluir desvairadamente o meio ambiente, mas ao contrário tem que gastar boa parte de seus lucros em medidas que diminuem a poluição das fábricas e moderem a devastação causada pela extração de recursos.Esses fatores somados se tornam obstáculos ao crescimento absurdo visto nos séculos XIX e XX, uma vez que acabam por colocar regras a extração e produção industrial. O resultado disso é menos dinheiro sobrando para imposição/construção da hegemonia no globo, é menos dinheiro para imposição ou manutenção da ideologia nacional sobre as outras nações.

Bush não quer saber nada de acordos climáticos

O Presidente dos Estados Unidos George W. Bush disse à agência de notícias britânica ITV que será negativo diante de qualquer acordo em matéria climática que seja discutido nesta semana, na Cúpula do Grupo dos 8 (G-8).
Bush disse que se os Estados Unidos tivessem ratificado o acordo de Kioto sobre mudança climática em 1997, isso teria significado a “destruição” da economia estadunidense. “Se isto é como Kioto, a resposta é não”, disse Bush.
Kioto é um acordo legalmente vinculante orientado a reduzir as emissões de carbono, considerada umas das principais responsáveis pelo aumento do aquecimento global. Os líderes do G-8 – Inglaterra, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Rússia e os Estados Unidos– se reunirão em Gleneagles, Escócia, nesta quarta-feira, iniciando a cúpula de três días de duração.
Bush disse que pretende pressionar pela introdução de novas tecnologías, como forma de atacar a problemática da mudança climática. Disse que a mudança climática é “um assunto com o que deve-se lidar”, afirmando que pode-se culpar a atividade humana, mas só até certo ponto. O presidente norte-americano espera que os outros líderes do G-8 estejam “além do debate de Kioto” e considerem estas novas tecnologias.
Assim, Bush disse que os Estados Unidos estão investindo no desenvolvimento de técnicas e energias “limpas”, como sequestro de carbono em poços subterrâneos, os veiculos movidos a hidrogênio e as estações energéticas com emissões zero.
O Presidente francês, Jacques Chirac, afirmou que espera chegar a um acordo em matéria de mudança climática, ainda que o Ministro de Meio Ambiente da Alemanha, Juergen Trittin, afirmou que é “muito cético no que diz respeito à vontade dos Estados Unidos de mudarem sua posição”.O Senador John McCain, um dos principais críticos de Bush em matéria de aquecimento global, afirmou que a abordagem do tema feita por Bush é “pouco feliz”.
Sobre a luta contra a pobreza na África, Bush indicou que estava pronto para abandonar os subsídios agrícolas aos produtores de seu país, mas somente se a União Européia deixar de lado suas Políticas Agrícolas Comuns.Os comentários de Bush sobre colocar os interesses dos Estados Unidos por cima das ações destinadas a atacar a mudança climática têm sido fortemente rejeitados pela Amigos da Terra Internacional. O grupo ambientalista exige dos líderes do G-8 que isolem à administração Bush em suas conversações desta semana.
Tony Juniper, vice-presidente da Amigos da Tierra Internacional, disse que “as políticas da administração Bush em matéria de mudança climática são curtas, negligentes e imorais. O Presidente garante que não aceitará objetivos de redução de contaminação porque deseja proteger a economia estadunidense, mas suas ações provocarão danos econômicos de grande escala, que também afetarão os Estados Unidos. A agenda Bush está claramente conduzida por interesses disfarçados, incluindo as companhias que vêem o vício norte-americano pelo petróleo como uma licença para imprimir dinheiro. Os outros líderes do G-8 devem isolar o Presidente Bush e encontrar uma causa em comum com aqueles países que vêem a necessidade de tomar ações urgentes, incluindo China e a Índia. Um día, os Estados Unidos se somarão, mas enquanto isso, aqueles países que visualizam a ameaça devem avançar”.


Origem: pagina da radio Mundo Real
(www.radiomundoreal.fm)

Metas do Protocolo de Kyoto serão ignoradas sem ajuda dos EUA

da Reuters, em Nova Déli
O mundo pode não cumprir as metas de corte na emissão de gases do efeito estufa acertadas em um acordo de 1997 se os Estados Unidos, maior poluidor do planeta, não reduzirem as emissões em seu território, afirmou hoje uma autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU).

"Se olharmos para as políticas atuais adotadas pelos EUA, é improvável que as metas de (Protocolo de) Kyoto sejam cumpridas", disse Joke Waller-Hunter, secretária-executiva do secretariado da ONU para mudanças no clima.

O Protocolo de Kyoto, assinado em 1997, pretende reduzir até 2012 em 5,2% a emissão de gases que provocam o efeito estufa no mundo desenvolvido, em relação aos níveis registrados em 1990.

Mas os EUA, os maiores poluidores do planeta, recusaram-se a ratificar o acordo, criticado pela superpotência por não obrigar os países em desenvolvimento a adotarem metas para o corte na emissão.
O país também afirma que medidas nesse sentido seriam prejudiciais à economia norte-americana.

Waller-Hunter, que está em Nova Déli (Índia) para um encontro de dez dias sobre as mudanças no clima, também disse que nem todos os países signatários do acordo caminhavam rumo ao cumprimento das novas metas de emissão assumidas.

Segundo a autoridade, era fundamental manter as portas abertas para os EUA, a serem incluídos no acordo futuramente.
Para entrar em vigor, o Protocolo de Kyoto precisa ser adotado por países que respondam por ao menos 55% das emissões de gases do efeito estufa verificadas em 1990.

Sem os EUA, o pacto naufragará caso a Rússia desista dele. Mas o governo russo deu apoio ao tratado e afirma que o ratificará neste ano, o que garantiria sua validade.
Origem: Folha online 2002

O Protocolo de Kyoto e a terceira etapa da “ecodiplomacia”

178 a 1. Esse foi o placar da conferência sobre mudanças climáticas realizada em Bonn (Alemanha), no final de julho. O único Estado que se recusou a firmar a versão revisada do Protocolo de Kyoto foi os Estados Unidos.
Do ponto de vista diplomático, o placar arrasador expressa a vitória alcançada pelos Estados europeus, que souberam atrair o Japão, e o isolamento, estranho e preocupante, dos Estados Unidos. A adesão européia e japonesa é suficiente para conferir força legal ao Protocolo de Kyoto. A “ecodiplomacia” ingressa, definitivamente, na sua terceira etapa, marcada pelo estabelecimento de regras compulsórias e pelo esgotamento da política de consenso retórico vigente desde a Conferência de Estocolmo, em 1972.
A primeira etapa da “ecodiplomacia” transcorreu sob o signo das idéias do Clube de Roma, que continuam a fundamentar as concepções da maior parte das organizações ambientalistas. O Clube de Roma nasceu em 1968, congregando cientistas, economistas e altos funcionários governamentais, com a finalidade de interpretar o que foi denominado, sob uma perspectiva ecológica, “sistema global”.
O arcabouço teórico do pensamento do Clube de Roma reside na idéia de que o planeta é um sistema finito de recursos, submetido às pressões do crescimento exponencial da população e da produção econômica. As suas conclusões apontavam o horizonte do colapso do sistema. As suas propostas organizavam-se em torno da noção de um gerenciamento global da demografia e da economia, a fim de alcançar um estado de equilíbrio dinâmico. Severas medidas de controle da natalidade e mudanças radicais nos modelos produtivos, com ênfase numa “economia de serviços”, eram as recomendações centrais da nova escola de pensamento ecológico.
A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972, ocorreu sob a égide dessas concepções e produziu declarações diplomáticas genéricas. O seu resultado mais efetivo foi a criação do novo campo da política internacional – a “ecodiplomacia”.
A segunda etapa da “ecodiplomacia” teve como ponto alto a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no rio de Janeiro, em 1992. A ECO-92 vinculou meio ambiente e desenvolvimento, politizando definitivamente o debate. Dela emergiu o conceito de desenvolvimento sustentável, expressão de estratégias econômicas destinadas a promover o crescimento da riqueza e a melhoria das condições de vida através de modelos capazes de evitar a degradação ambiental e a exaustão dos recursos naturais.
Contudo, sobretudo, a ECO-92 rejeitou a noção de que a defesa do meio ambiente pudesse conduzir à imposição de limites para o crescimento econômico dos países em desenvolvimento. Os tratados que emergiram da conferência identificam nos padrões de produção e consumo dos países desenvolvidos as principais fontes de poluição ambiental. O tratamento do tema do aquecimento global sintetizou um método: a Convenção do Clima definiu metas de emissões para os países desenvolvidos, mas não para os países em desenvolvimento.
As negociações para a Convenção do Clima foram marcadas pela resistência dos Estados Unidos à fixação de limites compulsórios para emissões de gases de estufa. No fim, os países desenvolvidos comprometeram-se a congelar, até o ano 2000, as emissões de CO2 nos níveis registrados em 1990. Não foram fixados limites nacionais compulsórios e o compromisso unilateral não se revestiu de valor jurídico. Esse padrão caracterizou a ECO-92: os tratados refletiram consensos retóricos sobre princípios gerais, sustentados pela ausência de obrigações precisas ou compromissos compulsórios.
O Protocolo de Kyoto, firmado em dezembro de 1997 e anexado à Convenção do Clima, inaugurou a terceira etapa da “ecodiplomacia”. Na ocasião, fixou-se o compromisso compulsório de redução de 5% nos níveis de emissões de 1990, a ser atingida entre 2008 e 2012. Também criou-se um sistema de comércio de créditos de emissões entre os países, de modo a conferir flexibilidade ao tratado e reduzir os custos do ajuste das economias nacionais.
Estados Unidos versus União Européia
A administração de George Bush já revelou, em várias ocasiões, a sua aversão ao multilateralismo e, em particular, às instituições e tratados internacionais que limitam o espectro de opções de política nacional dos Estados Unidos. A ruptura de Washington com o Protocolo de Kyoto, qualificado como “fundamentalmente equivocado” por Bush já durante a campanha eleitoral, sinalizou a tendência unilateralista da nova administração.
A reação européia consistiu em assumir a liderança de frenéticas negociações destinadas a salvar o Protocolo. Os europeus jogaram pesado. Para conseguir o apoio indispensável do Japão, propuseram a adoção de uma noção extremamente abrangente de “sumidouros de gases de estufa”: assim, as florestas preservadas funcionam como pretextos para vastos descontos nos tetos de emissões.
Por que os europeus empenharam-se a fundo em salvar o Protocolo, isolando os Estados Unidos e impondo constrangedora derrota diplomática à administração Bush? Há uma resposta óbvia: tratava-se de punir o unilateralismo e afirmar a independência européia no sistema internacional. Mas isso é apenas uma dimensão das motivações européias, e talvez não seja a mais interessante.
O aquecimento global, ao que tudo indica, é um desafio sério. Segundo as projeções médias atuais do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a média térmica global tende a aumentar em 2,10C até 2100, em virtude essencialmente da interferência humana. Contudo, de acordo com um modelo de Tom Wigley, um dos principais autores dos relatórios do IPCC, a aplicação do Protocolo de Kyoto teria apenas o poder de reduzir para 1,90C o aumento da média térmica global. E isso na hipótese, hoje bastante improvável, de que os Estados Unidos aderissem ao tratado.O Protocolo de Kyoto não tem o poder de “salvar o planeta” – que, inclusive, não está em perigo – ou assegurar “o futuro da humanidade”, para utilizar as expressões ingênuas e enganosas tão em voga no debate ambiental. Mas o tratado tem o poder de condicionar as políticas industriais nacionais, estimulando a inovação tecnológica na esfera crucial da produção e consumo de energia.
Quando a administração Clinton firmou o tratado, estava se engajando em políticas de inovação tecnológica tendentes a substituir o uso de combustíveis fósseis e promover a eficiência energética. A sinalização fornecida por Kyoto foi compreendida por empresas do setor de energia e montadoras automobilísticas, tanto nos Estados Unidos como na Europa e Japão. Ao lançar a operação de salvamento do Protocolo, os Estados europeus revelaram um compromisso estratégico com essas políticas, que prometem gerar uma onda de inovações e criar vantagens comparativas para as economias capazes de liderar o salto para o padrão energético do futuro.
A administração Bush escolheu, ao que parece, um outro caminho, baseado na manutenção de um padrão energético dependente da queima de combustíveis fósseis. Pior para os Estados Unidos.

Autor: Demétrio Magnoli
Fonte: Revista Pangea

O Desespero do "Tio San"

Quando se fala que o "Tio San" está desesperado, alguns chamam de sensacionalismo, mas estanhamente existe uma resistencia enorme dos Estados Unidos em aderirem a projetos sobre o meio ambiente. são frases do tipo "A questão fundamental é se vamos ou não ter a capacidade de crescer nossa economia e sermos bons com o meio ambiente ao mesmo tempo", pronuciada por Bush em um discurso no Arkansas. veja o artigo abaixo.



Bush classifica Protocolo de Kyoto de "má política"



ROGERS, Estados Unidos (Reuters) - O presidente norte-americano, George W. Bush, disse na segunda-feira que a abordagem de seu governo para enfatizar metas voluntárias para combater as mudanças climáticas está funcionando. Ele também criticou o modelo do Protocolo de Kyoto de estabelecer metas obrigatórias como "má política".
Os comentários de Bush foram o sinal mais recente de sua oposição para reduções obrigatórias das emissões de gases do efeito estufa continua firme, mesmo com seus esforços para mostrar maior engajamento no debate global sobre mudança climática."A questão fundamental é se vamos ou não ter a capacidade de crescer nossa economia e sermos bons com o meio ambiente ao mesmo tempo", disse ele durante sessão de perguntas e respostas após discursar sobre o orçamento no Arkansas."Estou interessado em boa política. Kyoto, eu pensei, era má política", disse.A crítica contra o Protocolo de Kyoto, assinado em 1997, veio dias depois do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore e um painel da Organização das Nações Unidas sobre a mudança climática ganharem o Prêmio Nobel da Paz pelo seu trabalho de conscientização sobre a mudança climática.A premiação para Gore, que ajudou a negociar Kyoto, gerou especulações sobre a possibilidade de novas pressões para que Bush mude sua posição sobre o aquecimento global e aceite as metas obrigatórias que muitos países europeus vêem como necessárias para combater o problema.
Autor: Caren Bohan

Origem: Yahoo notícias

O Começo do Fim da Hegêmonia


Quando os oito bravos cavaleiros Julianos, liderados por Paixão Cortes, Acenderam a chama crioula e iniciaram a 'resistencia cultural', o braço norte-americano estava em pleno vigor e tinha acabado com toda espécie de expressão regional no mundo todo. O movimento floresceu e se ploriferou, mesmo em terra infértil. Hoje os tempos são outros, mas o "Tio San" ainda é forte e exerce muita influência sobre o mundo todo, contudo veja esse artigo de José Luís Fiori da Universidade Federal do Rio de Janeiro que fala sobre os "eixos conflitivos crônicos", ou seja, as nações sempre estão em competição umas com as outras, e embora, sempre exista uma potencia hegemonica, ela não permanece sempre a mesma por toda a história.


O “poder global”
“A esperança e a previsão, embora inseparáveis, não são a mesma coisa, e toda previsão sobre o mundo real tem que repousar em algum tipo de inferência sobre o futuro, a partir daquilo que aconteceu no passado, ou seja, a partir da história.”
Eric Hobsbawm, Sobre a História, Companhia das Letras, p. 67Na década de 70, do século 20, discutiu-se muito sobre a “crise da hegemonia americana”. Foi no tempo da derrota dos EUA, no Vietnã, da crise do “padrão dólar”, da subida do preço do petróleo e do fim do crescimento econômico acelerado do pós-guerra. E foi também, no tempo da Revolução Sandinista, da Nicarágua, da revolução islâmica, do Irã, e da invasão soviética, do Afeganistão, consideradas, na época, grandes derrotas da política externa norte-americana. Hoje, quase quarenta anos depois, volta-se a falar com insistência, do declínio do poder mundial dos Estados Unidos.

O historiador inglês, Eric Hobsbawm, afirmou numa entrevista recente, que o “projeto americano está falindo”, e que a “superioridade dos Estados Unidos é um fenômeno temporário”. Quase na mesma linha do economista italiano, Giovanni Arrighi, que defende a tese que a “hegemonia americana” está vivendo uma “crise terminal”, depois do “fracasso do projeto neo-conservador no Iraque”, e depois que “os Estados Unidos deixaram de ser um estado hegemônico que criava ordem, para se tornarem uma força do caos e da desordem”. No caso do sociólogo norte-americano, Immanuel Wallerstein, a previsão é ainda mais radical: o que está em crise e deve acabar até a metade do Século 21, não é apenas a hegemonia americana, é o próprio “sistema mundial moderno” que se formou a partir da Europa, depois do século 15.Mas nenhum destes autores consegue definir com precisão o que seja uma “crise terminal”, do poder e da superioridade americana, ou do próprio “sistema mundial moderno”, de que fala Wallerstein.

Por que se trataria de uma “crise terminal”, e não apenas de uma crise cíclica ou passageira? E além disto, mesmo que fosse “terminal”, qual seria a sua duração e o seu desfecho? E o que é mais importante, o que passaria no mundo, durante este período de transição e de espera do “juizo final”?

Na verdade, o ponto fraco de todas estas previsões não está na sua análise da conjuntura internacional, está na teoria em que se apoiam suas projeções de longo prazo: a hipótese de que o “sistema mundial moderno” requer a existencia de “potencias hegemônicas” sucessivas, para manter a sua ordem política e o bom funcionamento da sua economia internacional. Dentro desta teoria das “sucessões hegemônicas”, o “líder” ou “hegemon” aparece na história como uma espécie de “resposta funcional” ao problema da “ingovernabilidade” de um sistema que é anárquico, porque é formado por Estados nacionais soberanos.

Por isto, em geral, esta teoria destaca as contribuições positivas do hegemon, para o bom funcionamento e para “governança global” do sistema, sem dar maior atenção à dinâmica contraditória das relações existentes entre o hegemon e os demais Estados que participam do sistema mundial. Por isto também, esta teoria funcional e evolucionista da “hegemonia”, não consegue dar conta do movimento contínuo de competição, luta e expansão dos Estados e economias nacionais que já conquistaram a condição de “grandes potências”, e fazem parte do “núcleo central” de todo o sistema, mas seguem competindo entre si, mesmo nos períodos que aparentam uma alta “tranqüilidade hegemônica”. Daí sua dificuldade para compreender situações de conflito e de ruptura, e a pressa com que estas análises e previsões, anunciam “crises terminais”, a cada nova turbulência econômica, guerra, ou derrota do hegemon, sem considerar a possibilidade que estas crises e guerras possam fazer parte do processo de reprodução e expansão do poder e riqueza do próprio hegemon, que não foi eleito para ser representante, nem para cuidar dos interesses gerais da humanidade.

A crítica desta teoria da “hegemonia mundial”, e destas previsões baseadas na hipótese dos “ciclos hegemônicos”, está na origem do conceito e da pesquisa sobre o “poder global”: um modo de olhar e analisar o sistema político mundial e suas relações com a internacionalização capitalista, que privilegia o conflito e as contradições do sistema mais do que suas relações funcionais. Da perspectiva do “poder global”, o sistema mundial é uma “máquina de acumulação de poder e riqueza”, e seu motor é a competição e a guerra, entre seus Estados e economias nacionais Dentro deste “sistema mundial”, não existem países satisfeitos, todos estão sempre se propondo aumentar seu poder e sua riqueza, e neste sentido, todos são expansivos, em particular, as “grandes potências” que já ocupam o topo da hierarquia do poder e da riqueza mundiais.

Por isto, este sistema pode ser comparado com um “universo” em expansão contínua, onde todas as potências que lutam pelo poder global, estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra.

E como conseqüência, se pode afirmar com toda certeza que dentro deste universo, ou seja, dentro do “sistema mundial moderno”, nunca houve nem haverá “paz perpétua”, nem hegemonia estável . Pelo contrário, do nosso ponto de vista, o que ordena e “estabiliza” as relações hierárquicas internas do sistema mundial, paradoxalmente, é a existência de “eixos conflitivos crônicos”, junto com a permanente possibilidade de uma nova guerra, entre as grandes potências. Por isto, do ponto de vista do “poder global”, desordem, crise e guerra não são, por si mesmos, um anúncio do “fim”, são uma parte necessária do movimento de expansão do sistema mundial.E deste mesmo ponto de vista, falar de uma “crise terminal”, com data marcada, de um poder hegemônico, ou do próprio “sistema mundial moderno” é um absurdo teórico e histórico. Até porque, no tempo de espera da “hora final”, o mais provável é que o sistema siga enfrentando e superando crises econômicas, como em toda a história da internacionalização capitalista, e situações de guerra, como em toda a história geopolítica das nações, inaugurada pela Paz de Westfália, em 1648.

Portanto, com relação a este tempo de espera, todas estas previsões “terminais”, são absolutamente inúteis.

Autor: José Luís Fiori, professor de Economia Política Internacional no Instituto de Economia da UFRJ.

Origem:
http://www.diariogauche.blogspot.com/